Vítima ou Algoz?

Introdução por Lu Lebel

Estes são fragmentos de um capítulo do livro “A Coragem de Crescer – Sonhos e Histórias para Novos Caminhos” da Maria de Melo, psicóloga formada pela USP.

Achei uma visão pessoal bastante interessante sobre o tema INGENUIDADE. Onde ela surge no Tarô? Não creio que podemos dar conta de nos defender de toda a maldade do mundo o tempo todo, é um aprendizado contínuo, mas é complicado quando colocamos apenas nossas expectativas ilusórias frente à sinais claros, ou forçando a barra no complexo de Poliana. Para refletirmos sobre esta palavrinha “ingenuidade”, associei cartas de Tarô  ilustrando os pontos chaves do texto que remetem situações da vida, na esfera pessoal, relacional, sociais e até no campo das ideologias. A ingenuidade pode ser um lado sombrio da fé cega da estrela, gerando as ilusões e dependência afetiva da lua. É a infantilidade do louco, o narcisismo do sol. O puritanismo da papisa e complexo de salvador e auto-piedade do pendurado e da grande mãe, a imperatriz que deseja devoção. O diabo….está no detalhe do lobo em pele de cordeiro! Vamos ao texto!

Lupo D. Wolf - Lobístico - Lobo - Lobisomem - Especial - Nao Me Deixe Triste - Dont Make Me Blue - Chapeuzinho Vermelho - Lobo Mau - Criatura das Trevas - Espírito Lupino (12)

Vítima ou Algoz?

Sobre ingenuidade por Maria de Melo

“Um esclarecimento inicial: ingenuidade é diferente de inocência. Inocente é uma criança que ainda não teve oportunidade de aprender por ser inexperiente. A ingenuidade é uma doença, por assim dizer, no sentido de que é uma paralisação, uma recusa a enxergar o que vê diante de si, o que a experiência está mostrando. Por ex: uma criança pequena não sabe ver as horas em um relógio, porque ainda não aprendeu. Mas se aos 17-18 continua incapaz de ver as horas, há algo errado. Na nossa cultura, as oportunidades para esse aprendizado são incontáveis. Se não é uma dificuldade intelectual, então é emocional. Mas é uma disfunção. Da mesma forma, uma pessoa adulta que não consegue assimilar que a destrutividade humana é um fato, e que é preciso cuidar, está com um problema sério.

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Livre, leve solto….este é o tolo, com a cabeça nas nuvens!

Ser ingênuo, não prestar atenção na maldade, na má-fé, ou até mesmo na limitação das pessoas é não olhar o outro de verdade, como ele é de fato, neste sentido, negá-lo.  No fundo isto é egoísmo, é querer a vida do jeito mais cômodo, mais gostoso. É infantilidade. Além disso, tem uma arrogância: eu era melhor que todo mundo, uma vítima que não se defendia, agüentava todas e facilitava as coisas para que o lado pior dos outros surgisse e atuasse.

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A Papisa como uma atitude passiva e puritana. A imperatriz como um lado generosos e mãezona, que mal-aspectada cobra o amor dado.

Encarando do ângulo mais interno, existe nessa atitude de ingenuidade, uma carência afetiva muito grande, uma fragilidade emocional que força a pessoa a manter suas ilusões sobre o mundo e as pessoas. É buscar mãe, enxergar a qualquer custo no outro, a atitude de uma mãe amorosa; ter um jeito Poliana de ser – o mundo é bonzinho e vai me amar se eu for boazinha.

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o arcano do Sol mal-aspectado: uma visão egocêntrica e até infantil de que o mundo gira em torno do próprio umbigo, narcisismo primário.

Na verdade, ser ingênuo é ser egoísta: é não enxergar o outro em todos os seus lados, suas fraquezas incluídas, e, em vez disso, estar ligado apenas à própria necessidade de ver o mundo cor-de-rosa. É também manipulação no sentido de que a ingenuidade é uma forma de forçar o outro a ser bonzinho e assim sustentar nossas ilusões. Como conseqüência, o ingênuo não colabora para proteger o outro de si mesmo e também a relação entre eles, pois convida seu lado sombrio a agir.

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Nosso lado infantil, os bons sentimentos. Bom ter este lado vivo dentro de nós, mas com certo cuidado.

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Porque pode gerar expectativas ilusórias do 7 de copas.

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Estrela invertida: Ver o mundo com óculos cor-de-rosa. Ter esperança pode ser bom na forma de otismismo, mas só esperar que tudo caia do céu pode ser um problema.

Num olhar mais distraído, podemos achar que o ingênuo é quase santo. Mas é só focar bem para ver nele muita arrogância. Nunca vi isso ser tão bem definido como no filme Dogville, quando um personagem diz a grande vítima, ingênua cinco-estrelas, algo como:

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“você aceita deles (os outros) atitudes cruéis que jamais admitiria em si mesma. Então, é óbvio que você se acha muito melhor que todos! Ou seja, você, uma pessoa santa e ética, deve ser tolerante com eles, pobres mortais!”.

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Se tem um Sado (diabo), tem um maso (pendurado). O pendurado muitas vezes banca o mártir, mas seu lado sombrio gera o vitimismo e acomodação.

De fato, tive muitas oportunidades de verificar que um ingênuo pode não ser santo, mas um grande problema.

O ingênuo é cúmplice do ladrão, ele participa do crime. Deixa a janela aberta, deixa-se roubar. Cria tentações, chama o lado ruim do outro, estimula-o a ultrapassar os limites.

Aceitar que o lado sombrio existe. Negá-lo, ou ignorá-lo não o torna capaz de lidar com ele.

Sendo vítima, eu exponho a maldade do outro, se não luto com eficiência, com competência para me proteger, estou me aliando a seu lado ruim. Torno-me então coautora do crime e da maldade.

É o mesmo que viver como criança, de forma irresponsável e folgada, sem prestar atenção aos perigos da vida. A vida não é só brincar, temos de escolher bem os companheiros da brincadeira, ou ela se torna perigosa.

Em geral, o ingênuo alterna momentos de descuido, de entrega excessiva – como um bebê que se larga nos braços maternos, de olhos fechados – com momentos que vai para o pólo oposto, como se acordasse de seu sonho infantil no meio da confusão que sua atitude ajudou a criar, coisa que ele ignora e fica extremamente desconfiado. Ou destrutivo, trocando de papel com o algoz e assumindo sua hora de violência. É um risco que corre. A bomba pode explodir.

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O que a pessoa ingênua não percebe é que se entregar de olhos fechados, sem cuidados, não é amor, ou é amor de um bebê para sua mãe. De um adulto a gente espera que chegue de olhos abertos, andando com as próprias pernas, e não caindo de cabeça na relação, como fazemos ao nascer, saindo do útero e nos jogando nos braços da vida, esperando que um adulto amoroso nos segure, não nos deixe quebrar a moleira!”

A pessoa ingênua ainda precisa evoluir, porém não mais no sentido de ser racional, objetiva, esperta. Existe o risco de passarmos do ponto nessa dimensão e correr o risco de cair na dureza e insensibilidade, na racionalidade fria e distante da dor humana. A busca  é de harmonia dos opostos, de integração.

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A lua, enquanto estado regressivo, a falta de auto-conhecimento e responsabilidade nos torna confusos. Situação de dependência.

Um bom companheiro nos ajuda a cuidar da construtividade da relação a cada momento com afeto, mas com firmeza, sem facilitar que nossas tendências neuróticas se fortaleçam.

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Seja sábio, aprenda com as experiências!

  • Gostei demais do post. Posso indicá-lo em meu blog?

    • Luciana Lebel

      Sim, claro!

  • Fernando Cunha

    Nossa, perfeito, um tapa com luvas de pelica…

  • Cláudia Morais

    Como se todo mundo tivesse que matar a criança interior. Texto cruel, desprovido de amor.

  • Cláudia Morais

    A culpa sempre é da vítima, não é mesmo?