V de Vingança -Visões Tarólogicas

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Bons filmes sabem utilizar bem os arquétipos, nos levam para uma jornada incrível através deles . Ainda mais, quando são eles extremamente contundentes e sedutores.  Esse é o filme V de Vingança, inspirado nos quadrinhos de Alan Moore, a respeito de um homem mascarado chamado “V”, que de modo bastante excêntrico, derruba um sistema político repressor.  Independente de sermos fãs ou não dos quadrinhos, temos muitos elementos no filme que nos levam a pensar sobre alguns arquétipos do tarô e a mitologia.

V poderia ser a carta V do tarô, o Papa. Um homem gentil, cavalheiro, amante da boa cultura e de educação inglesa ímpar. Podia até ser, antes de ter servido de cobaia de experiências nazistas, mas após ser banhado em fogo, ele assumiu o seu “lado negro”. E é disso que se trata o filme, a figuração de sua sombra, a subversão, na verdade, a carta XV, o diabo.  Já adianto, que o diabo não é necessariamente “O MAL”, mas a imagem daquilo que representa o que está reprimido, que é feio de se observar, que nos envergonha, que nos compromete. V foi uma experiência mal-fadada. E por conta disto, ele escolhe a vingança! Ele também é o desejo ardente de tudo o que gostaríamos de realizar, mas que ocultamos por trás das nossas máscaras, nossas personas.  Apesar de V assumir uma máscara, ele na realidade deseja retirar as falsas máscaras sociais. No filme, o lado opressor é o governo totalitário, ou seja, aspectos dos arcanos do imperador e do papa, que ordenam a sociedade, a moral e os bons costumes, a educação citada por Pink Floyd, a repressão utilizando uma máscara social, em contraste com os aspectos dos desejos, ambições e raiva velada, na carta do diabo. Apesar de V ser o diabo, é ele o agente que quebra os tabus, as regras, as convenções. É o sabotador da ordem instituída. Se ele apenas agisse na linha, seria mais um “another brick in the Wall”.

“E vesti-me com trapos roubados das escrituras, e me fiz passar por um anjo quando na verdade era um demônio.”

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O povo não deve temer o governo, mas o governo temer o seu povo.

 A máscara que a personagem utiliza é de Guy Fawkes, um homem que foi condenado à forca, após uma tentativa de explodir o parlamento inglês em 1570.  V diz a que veio, entretanto não mostra seu verdadeiro rosto, deformado e queimado, é um sujeito cuja essência é distorcida. Poderíamos nos ver através de V, de um lado, a “supremacia da civilização”, do outro, a perversão de tudo o que nos é negado. Assim como a carta XV, temos nossos aspectos sombrios, distorcidos, deformados por trás de nossas máscaras sociais. E que por mais feios que sejam, precisam ser confrontados como a “verdade nua e crua”. E quem sabe, pode isto tornar-se o propósito de uma vida, porém não como fanatismos e projeções, vendo os outros como bodes expiatórios de nossos medos, mas um confronto como auto análise e potencial de transformação.

“Esconda-me e seja meu ajudante pois tal disfarce por acaso vai tomar a forma do meu propósito.”

 E o que era condenado ou hipocritamente acobertado pelos repressores, se não todos os aspectos, tabus da carta XV, que visualizamos até os tempos atuais? Por exemplo, o padre que gostava de menininhas (perversões), prostituição, a morte e prisão de Valerie, por seu amor por alguém do mesmo sexo (preconceito),  aquele campo de concentração para testagens nazistas em cobaias humanas, controle midiático, uso de força e ditaduras. Enfim, tudo que é campo minado e polêmico.

Podemos compreender que o diabo é o guardião da carta XVI, a torre.  Tudo o que o diabo V representa eclode na carta da torre. Por conta disso, V parece ser um terrorista que explode coisas, uma tentativa de expurgo de tudo o que oprime para a renovação, a esperança e chegada do novo, a carta da estrela. Explode monumentos públicos que representam uma nação, enfim, ele não deixa de citar o “poder do símbolo”.

Aproveitando a questão da torre, visualizamos também um processo de “purificação através da dor”. É aqui, que chegamos na presença Evey , a mulher que V leva até a sua casa, a Galeria Sombria, com suas memórias, saudades e músicas românticas no clima de mistério de uma ilusória carta da lua. A lua também como representação do inconsciente, revela aquilo que está lá nas nossas profundezas. Nos quadrinhos originais de V for Vendetta, visualizamos escadas espiraladas, bastidores teatrais, enfim, simboliza o nosso outro eu profundo e rico, que pode assumir as formas que desejar. V rapta Evey e assim,  mostra aspectos desconhecidos para ela, tanto maravilhas, dignas de toda a sensorialidade do arcano XV, boa música, arte, magnetismo, quanto o contato com os seus próprios medos, de reagir, de lutar pelo que acredita. O V dos quadrinhos é ainda mais “advogado do diabo”, levando a jovem a repensar tudo, desde sua infância, suas perdas (seu pai é morto pelo regime) e seu comodismo frente à isso.

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A lua e o inconsciente…os bastidores.

OW_18_luneRemetendo a mitologia, há no filme uma espécie de “rapto de Persephone”.  V seria a representação de  Hades, deus do mundo inferior, subterrâneo onde residiam os mortos. Hades possuía um capacete que o deixava invisível, assim como V, uma máscara que o permitia ser anônimo, ou simplesmente, “uma idéia à prova de balas”.

Hades raptou a ninfa Persephone e levou-a ao “Vale das Sombras”. E após essa descida ao infernos, ela não seria mais a mesma. V ao raptar Evey e conduzi-la à aquela cruel encenação, promoveu igualmente uma estranha experiência purgatória. Como na carta da torre, ele derrubou cada um de seus tabus , deixou literalmente Evey no fundo do poço, para que através da dor, ela descobrisse sua real força interior. A cena em que ela vai para o terraço tomar banho de chuva, é o arauto de sua libertação. Certamente, esse é o tipo de terapia de choque que odiaríamos passar, mas que a vida promove sem avisos.

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Na mitologia Suméria, temos a descida de Inanna aos infernos. No mito “O Descenso de Inanna”, a deusa desce por sua própria vontade ao reino dos mortos, onde ela é morta e renasce. Assim como Lúcifer, Inanna também era chamada de estrela da manhã, a Vênus,  associada ao amor e a sexualidade. Quando a estrela surge no céu, era o horário em que as prostitutas buscavam seu trabalho.  No V for Vendetta dos quadrinhos, Evey sai às ruas, inicialmente, para se prostituir, quando V a “salva” dos repressores.

Resumidamente, o fio condutor de V for Vendetta, seria uma jornada, que vai da carta 15 à 21. Amores e desejos negados (XV), onde apenas uma experiência última poderia revelar seu grito de liberdade e esperança (XVI e XVII), trazendo à luz o que está oculto (XVIII e XIX), promovendo renascimentos, um chamado em si mesmo e nos demais (XX e XXI).

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A mudança sai do âmbito do indivíduo para o coletivo.

“Ele era Edmond Dantés.

E ele era meu pai e minha mãe.

Meu irmão e meu amigo.

Ele era você, e era eu.

Ele era todos nós.”

Observando as analogias mitológicas e tarológicas, fica claro então, como a experiência de purificação da torre, passa inevitavelmente através dos nossos tabus e preconceitos, como também, nossos mais intensos desejos. E como os mitos, como uma boa história, podem ser recontados de formas variadas e interessantes para nosso auto-conhecimento.

Luciana Lebel 
Taróloga

  • Bianca Guarani Kaiowá

    Suas interpretações são muito boas. Consegue unir vários aspectos humanos e sociais, contextualizando-os as atualidades.
    Estou admirada, parabéns. Não só por esse texto mas, por todo o trabalho do site e da página no facebook.

    • Luciana Lebel

      Bianca, gratíssima pelo comentário! abraços!!

  • Alex Barbosa da Silva

    ola luciana ,adorei seu texto e concordo e deixo a dica para quem nao viu o filme veja e tambem reflita a seu respeito.