Tarologia e Misticismo

Vivemos no tempo da razão. O pensamento científico criou a solução para muitos dos dilemas da sobrevivência na Terra, aplacou doenças, controlou pragas, enfim, organizou a vida! Como toda a demanda dominante criou também as suas chagas. Ficamos cativos de um sistema muito rígido de pensamento, e “sem a autoridade” de afirmar nada pela simples experiência pessoal. As coisas passaram a ter de ser medidas e testadas antes de serem consideradas confiáveis. Bem, isto é conhecimento, mas não é de forma alguma sabedoria. Nada pode ser descartado por esse método, ele em si é muito restrito!

Na teoria o pensamento científico abriga o benefício da dúvida para tudo o que não pode ser explicado por seus métodos. Na prática, entretanto, o que está ocorrendo é estruturação de certezas estreitas e muito rígidas que nos fazem olhar o infinito pelo buraco de uma agulha.

Eis que temos aqui a base da diferença entre o místico e o científico. O cientista, entronado pelo poder que a época atual o investiu, tornou-se um déspota, mas é na verdade um covarde, não consegue admitir nada superior a ele mesmo simplesmente porque não consegue lidar com isso, não é controlável!

O místico não quer controlar nada, ele quer interagir com o incognoscível, inspirar-se com ele, ouvindo sua linguagem não verbal e não linear. Como a mente cartesiana domina o cenário atual o místico foi rebaixado à categoria de “mistificador” para classificar uma pessoa que crê em fantasias. A essência do misticismo não engloba a crença, que é puramente cultural e, portanto, racionalizada, mas sim a confiança, e não numa fantasia, mas numa verdade não palpável, nem mensurável. Exatamente como o faz a física teórica! Essa, porém, tem na base da sua existência equações matemáticas contra as quais os leigos nada podem fazer a não ser baixar a cabeça. (…)

Não levantaremos aqui o rascunho de um tratado de uma guerra filosófica, o mundo já tem motivos de sobra para criar guerras, não precisamos criar mais um. Temos sim que trabalhar o respeito às diferenças e aproximar as semelhanças, pois elas existem sim.

Santo Agostinho definiu que misticismo é o conhecimento de Deus pela própria experiência. É disso que se trata todo o caminho que nos une a esse algo extremamente elevado e estranhamente interior. Essa sábia voz que emana de dentro de nós e que confunde os desavisados que se apressam em dizer: “Somos todos Deus!”. Isso é só uma parte da verdade, a outra parte é que Deus está em todo lugar o tempo todo, transpirando através das coisas e do universo. Também através dos símbolos, que têm sua origem, apenas em parte no homem, e outra parte no infinito, ao qual às culturas xamânicas deram o nome de grande mistério. Ao acessarmos o mundo simbólico estamos em contato com esse mistério e o tornamos acessível a outros.

Para a maioria dos buscadores esse contato se dá de modo pessoal, e restringe a sua influência a si mesmo e aos que o procuram e ouvem. Geralmente esse despertar se dará através de sua própria experiência, o que legitima o início da vivência mística. Uns o farão através da astrologia, outros através da numerologia, cabala… e outros, como eu, através dos arcanos do tarot. Os caminhos são muitos!

Quem já teve uma experiência profunda com o simbolismo do tarot conhece a maravilhosa sensação de estar imerso numa consciência maior que nós mesmos, e muito mais potente que nossa própria inteligência. As coisas passam a ser ditas de um modo fluído e, por mais que pareçam estranhas para nós, acabam por fazer um total sentido, e mais espantosamente ainda para pessoas desconhecidas por nós que nos procuram  para as leituras. Seja lá como for sempre obtemos uma abertura de consciência maior, algo que nos pode fazer meditar sobre coisas que antes nos passavam despercebidas, ou que se nos ampliam as dimensões da vida como a conhecemos. Como um mergulho na alma, um toque tênue no semblante de Deus.

Para aqueles que acham que existe nisso algum poder especial vale dizer que não há nenhum poder individual que emane, pelo contrário, há um poder total que é compartilhado. Não é um vaticínio, é uma benção. A função de todos os místicos é conduzir os novos buscadores, que todos os anos engrossam a estrada desse caminho, a olharem sincera e amorosamente para si mesmos e mergulhar com confiança nas águas daquela voz que aguarda ser ouvida desde o início dos tempos, e que nos une a fonte inefável da vida!

Jaime E. Cannes
Tarólogo