Tarô das Virtudes

O tarô é uma ferramenta para o auto-conhecimento, ou seja, através das simbologias e conceitos que ele carrega, temos ângulos e luzes sobre nós mesmos, e assim, aprendemos a ter mais consciência de quem somos e como interagimos com o mundo ao redor. E? Bem, podemos pensar que para evoluirmos como seres humanos, de algum modo aprendemos a lidar com as particularidades da vida, como viver os momentos de abundância e nos mantermos firmes perante as tempestades,  tudo através da conscientização dos nossos potenciais e fraquezas. Ok, mas quando pensamos em evoluir como seres humanos, o que isto estaria representando?Como é bom fazer perguntas!! E por isso, estarei levando-os por um TUR filosófico, tomando como referência, a República de Platão. Não é chato não, você vai ver!

Golden

Para os antigos filósofos gregos vir a ser um humano melhor significava buscar as virtudes. Palavra linda, até aí, parece coisa de religioso casto. Então vamos lá: Virtude, do latim virtus, de vir, viril, vigor; do grego, ρετή, arèté, arete, força; designa toda excelência própria de uma coisa, em todas as ordens de realidade e em todos os domínios. Segundo os dicionários, uma disposição constante, habitual ou firme da alma que levam o homem a praticar o bem ou a evitar o mal, equivalendo a uma força moral. Alguns confundem isso como ser uma espécie de santo, outros levam para religiosidade transformando isso em um dogma, mas digamos que para ser virtuoso, o buraco é mais embaixo!

Platão ocupou-se especialmente sobre a questão da virtude. A virtude para ele era um potencial para se atingir uma excelência. Mas a partir do que? Ele teve uma visão do que consideraria a Pólis (cidade-estado grega) ideal. Ele dividiu a sociedade em três partes, e relacionou o que considerava a responsabilidade e virtude de cada um dos caminhos:

governantes

  • Os GOVERNANTES , regidos pelo logistikon (razão), cuja virtude seria Sophia (Sabedoria);
  • Os GUERREIROS regidos por thymoides (raiva), cuja virtude seria Andreia (Coragem);
  • Os ARTESÃOS regidos por epithymetikon (desejos), cuja virtude seria Sophrosyne (Temperança).

Platão acreditava na hierarquia, onde cada um tem o seu papel. Porém, o fundamental é perceber que nós somos compostos por esses segmentos. Somos dotados de inteligência, sentimentos e necessidades básicas, podendo ser distribuídas nesses três segmentos, cada qual com sua Arete (Virtude), ou a tal excelência.

Curiosamente, o tarô possui também uma estrutura hierárquica em seus arcanos. Temos um casal de autoridades, o imperador e imperatriz, um poder eclesiástico, cultural e institucional do papa. Temos o guerreiro do carro, o bobo da côrte no louco. Temos o mago malabarista, a princesa virgem, ou a sábia conselheira papisa. Enfim, isto nos arcanos maiores, temos bastante clara essa estrutura hierárquica nos arcanos de côrte também. Medieval ou arcaica, temos os mesmos arquétipos. E todos os arcanos trazem consigo as virtudes, que podemos buscar aprender a desenvolver.

realeza

Começaremos pela virtude da Justiça que podemos correlacionar o logistikon de Platão, correspondendo ao que ele pensava ser vital no caminho dos governantes. A primeira carta a ser associada espontaneamente a esta virtude é o arcano 8, a JUSTIÇA, não só pelo nome, mas pelo seu apelo à lógica e medição. Mas ainda cabem outras a esta virtude.  Todos os arcanos que representam governantes podem entrar nesta virtude quando bem aspectados.  São eles: A imperatriz, que é justa no amor e nobreza; o imperador que é justo quando generoso e sábio; o papa, quando é justo na partilha do conhecimento. Todos eles devem conhecer a media entre o punir ou premiar, pois são eles quem tem a autoridade e poder moral. São eles os governantes! O mago e o louco ali, são um elemento  áereo, eles estão lá, mas não diretamente, eles são mensageiros e preadores de peças. Porém influenciam, a justiça também irá medí-los!

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Coloco  o arcano da justiça em contraste com as autoridades do Tarô e seus mensageiros, pois representa não somente o poder judiciário, mas também as leis cármicas, do plantio e colheita. O outro lado, tem o julgamento moral, a medida, promovida pelo raciocínio lógico, pesando todos os prós e contras, ajustando as pontas soltas segundo as leis estipuladas e direitos de defesa. Treinando o logístikon e com sucesso poderemos em algum momento alcançar a sabedoria (Sophia). Afinal, ser inteligente, não significa ser sábio!

Os filósofos acreditavam que através da razão, seria possível almejar a sabedoria, entretanto isto não seria apenas alguém ler muito, ou ser esperto, mas aquele que compreende a essência das coisas, onde tempo, experiência e intuição são importantes.  Portanto, mais dois arcanos podem ser trazidos aqui: a Papisa e o Eremita. A lua, como intuição, a nutrição do mistério e busca na escuridão, permeia ambos. Os mestres transmitem serenidade, pois eles sabem exatamente excluir o desnecessário e ater-se ao que é realmente essencial. Não necessitam de grande movimentos para vencer, suas decisões em todos os aspectos vão direto ao ponto e fundamentam a estratégia. O tempo e repetição nos tornam prudentes e mais sábios, por isso, uma imperatriz sabendo ouvir sua papisa e um imperador com a prudência do eremita, pode lançar mão à sabedoria.

intuir

A serenidade da é o presente de Sophia, mas isto não quer dizer que um mestre seja sobre-humano. Não podemos esquecer a  máxima Socrática: “só sei que nada sei”, nosso aprendizado é contínuo, por isso apesar da passagem do tempo, ter a mente de principiante e aberta ao novo é uma importante prática de Sabedoria. E essa mente de principiante é o lado arcano 0, louco e arcano I, mago, que sempre estão por perto para “entreter” com suas palhaçadas, mágicas e malabarismos,  aconselhando o rei e a rainha,  os governantes com algo novo, mantendo-os em movimento para aprender e manifestando o discurso, a comunicação.

dupla

Para Platão, existem a verdade, a essência que está além da aparência. Então, sobre a virtude da Justiça, ponto importante de Sophia, temos um trecho de um debate entre Socrátes e um sofista. Sócrates foi filósofo e mestre de Platão (segundo o próprio) e está presente em muitos dos seus escritos. Os sofistas eram aqueles que davam mais importância ao discurso do convencimento, da lábia, sem importar-se com a verdade. O foco central de seus ensinamentos sofistas concentrava-se no logos ou discurso, com foco em estratégias de argumentação. Ser um sofista é ter os arcanos do mago e o diabo na língua. Ou melhor…ser advogados do diabo, o que é fundamental para exercermos o raciocínio, o que também gera a política! No debate entre Sócrates e os sofistas, eles levantaram a seguinte questão:

sofista

Bom é parecer justo e não ser, ou não parecer justo mas ser, mesmo sem reconhecimento?

O sofista defendeu a primeira opção. Para ele, se os outros pensam que você é justo e mantém as aparências, alcança a felicidade, que seria o bem estar material, status, entre outras. Nada mais arcano XV que isso e provavelmente, nossos governantes, imperatrizes e imperadores no poder pensam deste modo mais materialista. Já Socrátes argumentou que tais prazeres são transitórios, quando não podemos deitar a cabeça no travesseiro e dormir em paz. Dizia ele ser mais importante a Eudamonia (Eu=bom Daimon=gênio), onde feliz é aquele que escuta seu bom gênio, sua voz interna e mantém a consciência limpa. Sabe aquela imagem de ter de um lado um anjinho e do outro um diabinho falando com você? Arcano XIV ou XV? Os governantes podem usar logistikon para manipulação e manter as aparências, ou podem agir com JUSTIÇA (arcano 8), mesmo que não sejam compreendidos e paguem um preço. Pois a justiça pergunta: Qual é a sua ética? Como você avalia? Suportará o peso da avaliação? Se associarmos às decisões tomadas pelos mestres e governantes, às outras virtudes como a SINCERIDADE e LEALDADE para consigo mesmo e os outros, estaremos obtendo a prática da eudaimonia.  A sinceridade é um dever do governante e infelizmente, é uma virtude pouco praticada, é a consciência iluminada, o arcano do Sol.

consice Em cada prato da balança da justiça, o diabo e o anjo. Na fronte de sua testa, temos o simbolo do sol.

Seguindo esta hierarquia, agora vem a CORAGEM, a virtude máxima do guerreiro, e para isso, segundo os gregos, ele precisa saber lidar sua raiva (thymoides).  Ela o impulsiona a buscar a vitória, a lutar contra obstáculos internos e externos, mas tem também tem suas armadilhas, a vaidade e violência. Esses são desafios fundamentais dos guerreiros representados no arcano do CARRO e a FORÇA. O Guerreiro do carro, que avança sobre os obstáculos e a dama do leão, que precisa controlar suas cóleras e caprichos, utilizando-as para o bem.

No senso comum, coragem tem muitos sentidos equivocados:  como alguém que se atira imprudentemente ao perigo, sem consciência de si, ou corajoso aquele que se impõe sem se importar com os outros e alcança o topo. A mensagem de coragem nos dias de hoje indica muito mais falta de auto-conhecimento e imaturidade. É o lado negativo, dos arcanos do carro e a força.

coragem

 A CORAGEM é uma virtude que exige extrema consciência de si. E é a habilidade de nunca perder uma parte de si mesmo nas piores condições. Este é o arcano XI, a força, ter auto-domínio. Não é a toa que temos muitos brasões medievais com leões, simbolizando bravura e nobreza. Ela está relacionada com o conceito de integridade.  Sendo que integridade, não pode ser vista com moralismo, esta palavra significa simplesmente “estar inteiro”, como no arcano do Mundo, ou enxergando com clareza, como no arcano do Sol. É preciso estar inteiro, ou seja, estar ciente de quem você é, incluindo os aspectos que você detesta, as suas faltas e fraquezas para assim enfrentar o desconhecido, sem se desviar do caminho. Para que essa virtude resplandeça, o domínio da fera interior deve estar em dia. Mas como ser uma pessoa “inteira”?

Platão sugeriu que a chave para a integridade é a coerência entre a Psykhe (alma) o Discurso (lógos) e Érgon (ação).  Alma aqui seria a essência, e não o que parecemos ser, ou nossa relação egóica com os desejos. O que falamos e como agimos precisa estar coerente com o que somos, alma-discurso-ação. Entretanto, muitas vezes contamos mentiras para nós mesmos, damos desculpas, cedemos à tentação de disfarçar aquilo que saiu dos trilhos. É quando encontramos a torre, que fere nosso orgulho e nos leva a infortúnios. Vamos tomar decisões conscientes?!

duvida

A coerência entre alma-discurso-ação, representa bem o arcano VII, o carro, pois representa ter um objetivo e fazer aquilo que você se comprometeu a fazer, sem se desviar! A força interior que coloca os cavalos na mesma direção, canaliza!

O filósofo dizia, que quando há o conflito entre nossa consciência e o discurso, ou falamos muito e não fazemos nada, ou agimos por impulso , torna-se necessário um auto-exame, acertar as contas com a consciência, o que exige CORAGEM, aquilo que um verdadeiro guerreiro tem como maior desafio. Quanto mais ajustes realizamos nesse tríade alma-discurso-ação, mais adquirimos um pouco desta virtude. Ou seja, a CORAGEM de realizar discursos e ações coerentes com nossa alma.Nada de Magos e Diabos sofistas…ou loucos ignorantes e pouco originais. O reconhecimento vem de dentro para fora, porque sabemos que fomos verdadeiros. Por isto a SINCERIDADE e LEALDADE são virtudes que precisam estar incluídas.

Se a bravura (palavra que ao mesmo tempo expressa a cólera e a valentia) do guerreiro representam as cartas do carro e da força, precisamos de algo que as freie. É isto a COMPAIXÃO. Esta é outra virtude que precisa estar associada à coragem. Para que thymoides (raiva) se manifeste como virtude, é preciso contemplá-la de COMPAIXÃO, ou seja de sentir com o outro. E temos isto, no arcano XII, o pendurado!Não basta ter a direção do carro e a fúria do leão se você apenas pensa em si mesmo!

compaixao

A compaixão para Platão era uma forma de amor. Sendo que para os gregos, amor tinha dois sentidos: EROS era o amor carnal, ligado mais ao mundano, aos prazeres, enquanto FILIA assumia a natureza de uma aceitação incondicional do outro, incluindo o RESPEITO pelas diferenças. A palavra compaixão significa “sentir junto”, vivenciar o sofrimento de outro, a capacidade de se pôr em seu lugar, e com integridade e consciência atravessar a crise. Exige isto muita coragem e coerência interior, para corrigir aquilo que está errado e se engajar no problema. A coragem e compaixão unidas são virtudes longe do status quo ou mera competição. É o chamado de realizar algo maior e mais importante que nós mesmo. Abrir mão dos próprios desejos em benefício de outros é um ato de coragem e compaixão. O Pendurado nos traz este ensinamento e podemos incluir a carta da estrela, visto que é algo maior que nós!

Os artesãos refletem a nossa preocupação com as necessidades básicas, as aparências, os prazeres, expressando características de Epithymetikon (desejos), cuja virtude seria Sophrosyne (temperança).

Os artesãos seriam aqueles que se ocupam de trabalhos manuais, preocupam-se com a parte material, se tudo está em ordem e limpo, se os seus artefatos estão feitos com cuidado e maestria. Apesar de comprarmos um produto pronto, aquela manufatura custou o tempo e suor de alguém, assim como seu conhecimento e sua arte. Por isso, associo ao arcano da temperança, como algo que sabe lidar com o cotidiano, conhecimento técnico, a alquimia. Essa idéia de valor deve estar presente no nosso trato com as coisas materiais.

diabo e temp

Normalmente, a excessiva preocupação com nossos próprios desejos nos torna alienados do ambiente tirando um pouco da nossa percepção do todo. É a espreita do arcano do diabo. Ele nos impulsiona a desejar, é o que nos faz ter ambições, gerando desmedida. A percepção de equilíbrio, balanço de todas as coisas, daquilo que desejamos e o que é necessário para os outros e as coisas, traduz o que é a virtude da temperança. Esse mesmo balanço podemos ver na vida como um todo, pois apesar dos nossos desejos de reter, tudo é transitório, assim ensina a roda e o desapego da morte!

rodamorte

Todas os caminhos da Pólis de Platão estão interligados, somos um pouco de cada, é  preciso compreender que não são segmentos independentes. Do mesmo modo que o governante precisa estar ciente dos dois outros caminhos, assim também o artesão e o guerreiro.

E assim, viajamos por todas as cartas do tarô visando as VIRTUDES! Sua vivência aponta para um caminho profundo, que transcende, e que por sua mensagem através dos tempos desde os filósofos antigos, traduz eternidade, seu sentido espiritual.

final

Luciana Lebel

Taróloga e Psicóloga

  • Giancarlo Kind Schmid

    Texto fantástico, Lu! Tiro o meu chapéu. Obrigado por nos brindar com essa escrita refinada e sintonizada.

    • Luciana Lebel

      adorei o comentário, Gian! beijão!:o*

  • excelente texto ,parabéns a ponte entre a filosofia e os arcanos ficou perfeita.

    • Luciana Lebel

      obrigada! 🙂