Tarô – Bússola e Caminho

Nesta vida escolhemos muitos caminhos…

Uma das primeiras escolhas é se vamos caminhar com ou sem Deus. Acreditamos em um universo-criatura, em um Ser superior, uma Consciência Universal que dá propósito à existência ou uma fantástica e maravilhosa sucessão de acasos capaz de aleatoriamente ordenar o caos.

Qual o caminho?

Escolhido o caminho com Deus, a escolha recai entre misticismo, religião e superstição.

Esses não são caminhos excludentes – pelo contrário, há gente que é as três coisas! – mas tem suas diferenças. Todo o religioso possui uma dimensão mística, mas não necessariamente busca uma experiência direta de Deus como o místico assim como todo o místico possui uma religiosidade profunda, embora não seja necessariamente seguidor de alguma religião. E quanto à superstição… bem, não foi nem uma nem duas vezes que vi pessoas – mesmo ateus! – desviarem para não passarem debaixo de uma escada, muitas vezes citando o Martin Fierro como explicação “en brujas, no acredito, pero que las hay, las hay!” (não creio em bruxas, mas que elas existem, existem!). (…)

Para este caminhante, o tarô se apresenta de duas formas, ora como instrumento, ora como caminho em si.

Como instrumento, o tarô é uma bússola, uma ferramenta que nos permite saber de onde viemos e aonde vamos, nos permite identificar e entender as pedras no meio do caminho, reconhecer companheiros, identificar impulsos, ver as verdadeiras razões por trás de nossos próprios atos; é também um livro de sabedoria infinita, cheio de bons conselhos, um livro que nos permite filosofar e entender nossa posição no Universo; é também um roteiro para uma viagem interior, cheia de descobertas. A partir daí, o instrumento passa a se confundir com o caminho…

O exercício com o Tarô conhecido como “o caminho do Louco” que nos faz vivenciar no mundo arquétipo a experiência de cada um dos arcanos começando pelo Louco e terminando com o Mundo é sem dúvida um dos aspectos mais altos do tarô como caminho, permitindo àquele que o trilha seguir a indicação que a Tradição atribui ao Oráculo de Delphos “conhece-te a ti mesmo e conhecerás os Deuses e o Universo” – mas não é o único!

Aquele que escolhe trilhar o caminho do tarô torna a sua própria vida uma “viagem do louco”, reconhecendo a cada momento qual Arcano o está auxiliando ou desafiando. Mas ainda não fica aí. O tarô como caminho, permite ao caminhante fazer deste um modo de vida. Você pode tirar seu sustento do tarô. Pode usá-lo para ganhar dinheiro. Para criar dharma ou para fazer karma.

É possível ajudar as pessoas com o Tarô! Ele permite realizar terapias, consolar, explicar momentos difíceis, compreender e elucidar enigmas. Mas também permite prejudicar. Quando você escolhe o tarô como modo de vida, você se coloca geralmente sob a égide do Arcano 1 e, de uma forma ou de outra assume a imagem do Mago.

A interpretação mais comum do mago é aquela que o pinta como um homem jovem que tem à sua frente os quatro elementos (naipes) – um Mago na verdadeira acepção da palavra! – mas não é a única!

Procuremos nos baralhos mais antigos e veremos que muitas vezes até o nome da carta muda… em vez do Mago, entramos em contato com o Pelotiqueiro… aqui, em vez daquele ser tão elevado o que vemos é um mágico de rua, daqueles que fazem truques com copos e bolinhas para arrancar o dinheiro dos passantes.

Na antiga Grécia o deus Hermes tinha um valor semelhante. Era ao mesmo tempo o guardião dos Conhecimentos Herméticos, o Condutor das Almas, o Mensageiro dos Deuses e também o Deus dos Ladrões! Tinha sabedoria – sim! – mas também muita lábia…

O tarô é um instrumento poderoso e um caminho – tanto para elevação espiritual e autoconhecimento quanto para coisas mais materiais. Você pode trilhá-lo como a qualquer outro, mas ele – como qualquer caminho – só será válido se for trilhado com o coração leve e a consciência tranqüila.

Para encerrar, gostaria de propor um contraponto, citando um poema de Antonio Machado chamado Caminhante, não há caminho:

Caminhante tuas pegadas

São caminho, nada mais

Caminhante não há caminho

Se faz caminho ao andar

Ao andar se faz caminho

E ao voltar a vista atrás

Se vê a estrada que nunca

Se vai voltar a pisar

Caminhante não há caminho

Só estrelas sobre o mar.

Para que chamar caminhos

Aos sulcos do azar?

Todo o que caminha anda

Como Jesus sobre o mar

Eu amo a Jesus que nos disse

“Céu e terra passarão

Quando céu e terra passarem

Minha palavra ficará.”

Qual foi Jesus tua palavra?

Amor? Perdão? Caridade?

Todas tuas palavras foram

Uma palavra: Velai.

Como não sabeis a hora

Em que vos vão despertar

Despertar-vos-ão do sono

Se não velais; despertai.

Um abraço!

Por Theophilos G (RMM)