O Sol: a luz depois da sombra

A primeira coisa que devemos observar na carta 19 do tarô, o Sol, é que se trata da primeira carta que compõe as três últimas da segunda parte do trajeto percorrido pelo Louco. As 21 cartas são usualmente divididas em duas partes: a primeira, que vai da carta de número 1 à 11, compreende a jornada de autoconhecimento e amadurecimento vivida pelo Louco, aquele que se lança ao caminho, à busca de sua jornada e aventura pessoais. Essa primeira parte compreende a iluminação dos trajetos, as descobertas de quem se é, os amores, as decisões tomadas, o isolamento do Eremita, carta 9, ou seja, o crescimento pessoal. A segunda parte, indo da carta 12 à 21, trata-se da mais obscura da jornada, em que se descobrem os próprios fantasmas, em que se tem que lidar com a Morte, física ou psíquica, em que o medo surge. Se percorreu a primeira parte como deve ser, a segunda vem com mais facilidade, pois se está mais amadurecido para enfrentá-la; no entanto, se não se empreende a jornada interna exigida para o autoconhecimento, a tomada de posição realizada pelo Pendurado, carta 12, o ato de ver o mundo por um outro ângulo, em vez de ser construtiva passar a ser imobilizadora, e o ser atravanca a própria vida por medo ou desconhecimento do que é necessário fazer para sair da situação em que se encontra.

Assim, depois de vagar pela obscuridade do próprio inconsciente, o ser desemboca no Sol, a primeira carta de luz – apesar de a carta 17, a Estrela, também vir antes – depois de ter passado pela sombra, que culmina na carta anterior, a Lua. Dessa forma, o Sol vai encarnar o concreto, pois representa o lado masculino, o yang, em oposição ao feminino, yin, representado pela Lua. Nesse sentido, é o que fecunda, faz germinar, para criar um novo ser, ou novas idéias, novas atitudes, novos projetos e empreendimentos. Enquanto a Lua é fértil em emoções, carrega a gestação, o Sol é fértil em atitudes, em impulsividade, em resoluções. É uma carta de ação, de tomada de posição. (…)

O Sol sobretudo é o que brilha, mas, como nosso sol físico que ilumina nosso planeta, só se pode olhá-lo verdadeiramente através da própria sombra, nunca diretamente. Ou seja, há de se autoconhecer primeiro para ver a própria luz, e esse autoconhecimento vem com a descoberta do que há de mais obscuro em nós mesmos, guardado pelo Diabo, pela Torre e pela Lua. Assim, o Sol surge como um momento de felicidade, de alívio, de calor e de aconchego depois de havermos chafurdado na própria dor e termos saído fortalecidos e amadurecidos para conhecermos os dois lados que nos formam: luz e sombra, bem e mal.
A carta 19, o Sol, vai se desdobrar duas vezes a partir do próprio número: desemboca no 10, pela soma de 1 + 9, e no 1, pela soma de 1 + 0. Ou seja, o Sol guarda dentro de si a mudança e a flexibilidade da Roda da Fortuna e também o início, o vigor, a vontade de recomeçar do Mago. É uma carta de vitória, de iluminação, que fala de conquista, de felicidade, de vida. Trata-se de algo que é esperado e que vem como um prêmio pelo que se passou. E também prepara o consulente para o fim do ciclo que se fecha com as duas últimas cartas dos arcanos maiores: o Julgamento e o Mundo. O Sol é a primeira carta da última etapa da jornada; por isso, também vai guardar desafios.
Por fazer parte da segunda etapa da jornada empreendida pelo consulente, ou pelo Louco, o Sol vai guardar também o desafio de encarar as próprias deficiências, nesse caso, a arrogância, a prepotência, a vontade de domínio. Pois, ao fazermos um paralelo com a astrologia, devemos lembrar que o Sol é o regente do signo de Leão, o Rei dos signos, aquele que detém o poder, que sabe e quer governar, mas que guarda dentro de si muitas vezes o autoritarismo, a ditadura. Lembremos o arquétipo maior de nossa história recente: Luís XIV, soberano francês do século XVII que entrou para a história como o Rei Sol. Grande empreendedor, uma das suas maiores obras foi a edificação do magnífico Palácio de Versalhes, nos arredores de Paris, em que se pode notar toda a opulência do seu idealizador. No entanto, por trás de todo o brilho havia também um grande déspota, a “encarnação do absolutismo”. Provavelmente ninguém melhor do que ele para encarnar o arquétipo da carta da qual trata este texto.
Dessa forma, um momento de Sol é um momento de vitória, de conquista, mas também um momento de se aprender a lidar com a própria arrogância, de aprender a ser mais humilde, mais condescendente. De saber que não se vive só, sobretudo não se vive sozinho na luz. Como o leonino, o regido pelo Sol tem que aprender a escutar mais, a olhar mais para os outros como iguais, não numa relação assimétrica, como um rei costuma fazer. Ele deve aprender a dominar o próprio ego. Só assim terá discernimento para o que virá em seguida, o Julgamento, a carta de maior amadurecimento dos arcanos maiores. De certa forma, o Sol ainda traz um pouco da energia da carta anterior, a Lua, ou seja, o sentimento de auto-suficência. Mas, diferentemente desta última, que coloca esse sentimento no isolamento, até na circunspecção, levando a uma vitimização do próprio ser, o Sol levará a auto-suficiência ao ato de se colocar acima dos outros, o que faz sentido, pois um rei tem súditos, e são estes, teoricamente, que precisam ser guiados, como crianças, por aquele que os governa. Assim, a personalidade Sol tenderá a se distanciar dos outros por achar que deve dominá-los, por sempre poder mais, por deter o saber de todas as questões. Enquanto a personalidade Lua se esconde no próprio ser, se lamuriando, a personalidade Sol se torna tão inatingível que sofre o mesmo tipo de isolamento, apesar de por motivos contrários.
Assim, o Sol tem que aprender a lidar com a própria vida que corre em suas veias, com a própria luz, nunca esquecendo de que esta caminha par a par com a sombra, e que a um dia sempre sucede uma noite. Somente dessa forma ele aproveitará todas as benesses vindas de suas conquistas e saberá partilhá-las com os outros. Somente assim ele transmitirá a luz que carrega dentro de si e usará essa luz em seu próprio proveito: sabendo discernir em todas as decisões quando da etapa seguinte, o Julgamento, e sobretudo sabendo escolher na última carta do trajeto, o Mundo, em que todas as escolhas são possíveis, boas ou más, construtivas ou destrutivas. E ele estará pronto para tornar a recomeçar no 1, como Mago, mais fortalecido, mas com a mesma gana de viver, com a mesma curiosidade. Porque a vida é um ciclo. Tudo termina, tudo recomeça. Não é à toa que a última carta dos arcanos maiores é o Mundo… um tanto quanto cíclico. Boa jornada!
Débora de Castro Barros
Tradutora, revisora de textos e taróloga

  • Aline Bonifácio

    Ótimo artigo! Gostei muito mesmo!