O Privilégio Absoluto da Loucura

Reflexões sobre o arcano 0 – O louco e a História da Loucura de Focault
“Falo na condição de louco, e o sou mais do que ninguém” – Coríntios.
Isto aqui não é um tratado sobre a carta do Louco, pretendo apenas gerar alguma reflexão sobre as facetas de que consideramos loucura. Quando apontamos aquele sujeito feliz e dizemos: aquele cara é um louco! – ou aquela mulher de muitos amores com desdém, fazemos referência aos limites criados como “verdade” para se viver em uma coletividade.
A carta zero do tarot tem um sentido muito profundo, embora aparentemente, seja em suma, tolice. Fala de imaturidade, irresponsabilidade, como também da própria vida humana e sua vontade de vivê-la agora, entretanto: de onde vieram tais conceitos atribuídos a este arcano, o Louco?
Talvez, a arqueologia do saber do filósofo Focault, possa nos dar uma idéia a respeito de todas as nossas considerações sobre este arquétipo chamado “loucura” e sobre sua história.
Um breve resumo do livro História da Loucura, onde podemos visualizar grande parte das significações que atribuímos ao arcano zero:
No renascentismo, o louco era o artista, o sábio, o bobo que tinha local de honra ao lado do rei.  Ele era aquele que tinha a coragem de ser ele mesmo, destacava-se, não seguia padrões. Por volta do século XV, Foucault mostra como ao final da idade média e no renascimento, a loucura circulava entre os homens. A loucura simboliza as inquietudes do homem renascentista, envolve uma sabedoria acerca dos trágicos caminhos da vida e do mundo, “a loucura da vida”.
No período Clássico, a moral, o racionalismo cartesiano, o mecanisicmo e a valorização do trabalho se instaura, e por isso, atribuímos a este arquétipo, antes livre e cheio de vida, um caráter de irresponsabilidade e boêmia. Ser diferente era uma afronta, ser “feliz”, mais ainda.
Do século XVI ao século XVIII, ocorre a redução da voz do “louco” ao silêncio. O pensamento Cartesiano, científico e o mecanicismo atribuíram a “razão” como centro da existência, trauma de uma sociedade antes caótica. Agora, esta sociedade deveria funcionar tal como máquina, tudo ordenado, todos produzindo, peças inúteis eram descartadas, o trabalho era supervalorizado.
Uma ampla categoria de indivíduos considerados INSENSATOS ou DESATINADOS eram alvo de internação nos hospitais gerais. A população dos insensatos não era percebida a partir da idéia de doença e sim de um julgamento moral, eram pessoas que apresentavam defeitos morais. Ela envolvia miseráveis, velhos, vagabundos, libertinos, homossexuais, prostitutas, bêbados, suicidas, criminosos, etc. Ou pelo menos, assim eram taxados, uma mulher emancipada, era prostituta, um homem desempregado era um vagabundo desocupado. Tudo era motivo para a CULPA. E hoje, se você tiver condições e deixar de trabalhar não é taxado de vagabundo?
No final das contas, ainda não sabemos se o nosso Insensato arcano 0 é de fato “Um Louco”, que nos dias de hoje, a partir de Pinel no século XIX, passou a ser uma doença mental a ser tratada, ou apenas um sujeito que tem a ousadia de ser autêntico na dor ou alegria.
Se a loucura conduz todos a um estado de cegueira onde todos se perdem, o louco pelo contrário, lembra a cada um sua verdade, na comédia em que todos enganam aos outros e iludem a si próprios, ele é a comédia em segundo grau, ele é o engano do engano. Ele pronuncia em sua linguagem de parvo, que não se parece com a da razão, as palavras racionais que fazem a comédia de estar no cômico, ele diz o amor para os enamorados, a verdade da vida aos jovens, a medíocre realidade da vida aos orgulhosos, os insolentes e os mentirosos“. Pg14 ref 47
Quando nos deparamos com o louco, sua roupa colorida e seu traseiro aparecendo, na simbologia tarológica, presenciamos o ridículo que há em nós.  A cegueira da personagem que caminha sem ver onde pisa, o grande salto ao abismo, revelando o vazio de nossas verdades no que diz respeito à vida.
Ascender, pelo espírito, até Deus, e sondar o abismo insensato em que estamos mergulhados constitui uma única coisa, na experiência de Calvino, a loucura é a medida própria do homem quando é este comparado a razão desmesurada de deus“. Pg 30
O louco anda de mãos dadas com todos os arcanos do tarot. O arcano Zero é o tudo e o nada. Ele é a vida e a nulidade da morte.
Em relação à sabedoria, a razão do homem não passava de loucura, em relação a estreita sabedoria dos homens, a Razão de Deus é considerada no movimento essencial da loucura. Em grande escala, tudo não passa de loucura, em pequena escala, o próprio todo é loucura“. Pg 32/33
Quando voltamos para nós mesmos, observando as trevas, os nossos fantasmas do arcano 18, a Lua, vemos desenhada em sua face, a loucura.
Reduzindo(1+8 =9), revela a nossa busca pelo auto-conhecimento, a solidão do velho eremita, arcano 9.
“A imagem da loucura humana que fascina o olhar do asceta – permanecendo uma e outro prisioneiros de uma espécie de interrogação no espelho, a permanecer indefinidamente sem resposta, num silêncio habitado apenas pelo bulício imundo que os cerca.” Pg 19.
A experiência da loucura nos faz compreender que o real e o ilusório são muito próximos. Até a carta mais dogmática da jornada, o Papa ou a detentora do livro, a Papisa, seria uma outra espécie qualquer de loucura. As nossas culpas, nossas regras, nossa construção, nossa pretensa autoridade. O arcano 0 está no egocentrismo da carta do sol, nas tentações do diabo, no impulso de destruição da torre. Está também na nossa punição e ética da justiça, na desistência de nós mesmos no pendurado, no desespero da torre e perdas da morte. O louco é onde tudo começa e tudo termina, está no espaço vazio, entre a boca e a cauda da serpente Uroboros da carta 21, o mundo.
“(…)O homem faz surgir sua loucura como uma miragem. O símbolo de sua loucura será doravante este espelho, que nada refletindo de real, refletiria secretamente, para aquele que nele se contempla, o sonho de sua presunção“.Pg 25
Isso aparenta ser uma espécie de teoria do Caos, o que é insuportável para nossa razão. Assim sentia-se o homem clássico e temos os resquícios deste terror nos dias de hoje.
A loucura só tem sentido e valor no próprio campo da razão. Tal é a pior loucura do homem: não reconhece a miséria em que está encerrado, a fraqueza que o impede de aproximar-se do verdadeiro e do bom, não saber que parte da loucura é a sua“.
Quando negamos o louco que há em nós, quando negamos a experiência arquetípica do arcano zero, estamos negando toda a jornada.
No pólo oposto a esta natureza de trevas, a loucura fascina porque é um saber. É saber, de início, porque todas essas figuras absurdas são na realidade, elementos de um saber difícil , fechado, esotérico. Este saber tão inacessível e temível, o louco detém em sua parvoíce inocente.enquanto o homem racional e sábio só percebe desse saber algumas figuras fragmentárias, o louco carrega inteiro em uma esfera intacta essa bola de crital, que para todos está vazia,mas aos seus olhos está cheia de um saber invisível“. Pg21
Os exemplos da loucura humana podem ser vistos nas trevas e qualidades dos arcanos do tarot. De um modo geral, a loucura não está ligada ao mundo e suas formas subterrâneas, mas sim ao homem a suas fraquezas, seus sonhos e suas ilusões:
Loucura da vã presunção – “Através de uma adesão imaginária, que lhe permite atribuir a si mesmo todas as qualidades, todas as virtudes ou poderes de que carece“.
A presunção é nossa doença natural e original”.
Alguns arquétipos: sol, força, carro, imperador, papa.
A loucura do justo castigo – “Ela pune através das desordens do espírito as desordens do coração“.
Alguns arquétipos: papa, papisa, enforcado, julgamento, justiça.
A loucura da paixão desesperada – “Enquanto tinha um objeto, o amor louco era mais amor que loucura, abandonado a si mesmo, persegue o vazio do próprio delírio“.
Alguns arquétipos: imperatriz, enamorados, diabo, força, lua.
Esta é a história de nossas significações ao arcano 0, o parvo, desatinado ou insensato de acordo com Foucault. Espero ter contribuido para enlouquecê-los ainda mais.
Privilégio absoluto da loucura: ela reina sobre tudo o que há de mau no homem. Mas não reina também, indiretamente, sobre todo o bem que ele pode fazer?“.pg. 23
Por Luciana Lebel
Taróloga e estudante de psicologia
Bibliografia:
Focault, Michel, História da Loucura na Idade Clássica, ed. Perspectiva
Figuras Tarot de Bosch – “Os outros mais frequentemente procuram pintar o homem tal como ele surge no exterior, enquanto Bosch tem a audácia de pintá-los tais como são em seu interior”. Pg.27