O Enamorado – Livre-arbítrio e Responsabilidade

Tenho ouvido muita gente reclamar ultimamente e essas reclamações abrangem todos os setores da vida, como se esta se resumisse a um fardo pesado do qual as alegrias não fazem parte. Isso é realmente uma preocupação porque pessoas não são apenas carne e osso e sofrimento. São antes, um corpo energético que se irradia, se divide e se mistura com outros corpos astrais participando ativamente da composição energética do ambiente em que circulam. Além disso, a atitude de reclamar exterioriza uma postura vitimada, livre de consciência e responsabilidades. Normalmente o coitado sofredor nunca se reconhece como sendo a raiz de seu próprio problema, nunca se enxerga como o único capaz de resolvê-lo e, pior, espera que os outros anestesiem sua dor ou que a dor simplesmente se vá sozinha. Logo, tendo sua consciência ausente, não assume a real responsabilidade pela vida que leva.
Livre de consciência… Então, nos tornamos irracionais? Somos puramente instinto? Voltamos à selvageria das cavernas em que vivíamos a milhões de anos atrás?  Isso não é agradável ou confortável para nenhum tipo de consciência ativa. Aqui, não ignoro ou desprezo nossa metade instintiva, mas enfatizo que nossa metade racional e consciente é o que nos difere dos outros animais e nos permite uma atuação ambiental maior do que simplesmente nascer e morrer como parte da cadeia alimentar e evolutiva.
Penso que a angústia que permeia esse tipo de comportamento relaciona-se diretamente às escolhas feitas durante nossa caminhada. Escolher é complicado. Escolher coloca o indivíduo frente a frente consigo mesmo, com seus valores, com suas metas.
Estamos agora diante do príncipe troiano Paris, que recebeu de Zeus a incumbência de presidir um concurso de beleza entre três deusas: Hera, Afrodite e Atena.
Quando Paris nasceu, o oráculo previu que o menino seria a ruína do império do pai, o rei Príamo de Tróia. Com medo da profecia, o pai mandou que o menino fosse condenado à morte, abandonado à própria sorte no topo de uma montanha. Por obra do destino, o garoto foi salvo por um pastor generoso que o criou e ensinou-lhe seu ofício. E assim, Paris cresceu e se criou como pastor de ovelhas. Ao se tornar homem, além de cuidar de seu rebanho, ele passava todo tempo livre envolvido em façanhas amorosas, pois era muito bonito e sedutor.
Quando surgiu a questão no Monte Olimpo entre Hera (rainha das deusas), Afrodite (deusa do Amor) e Atena (deusa da Justiça) para saber quem era a mais bonita, Zeus decidiu que Paris, justamente por sua enorme e variada experiência com mulheres, seria o melhor juiz para o concurso e Hermes foi enviado para informar ao jovem sua responsabilidade perante o rei dos deuses.
Sabiamente, Paris recusou o privilégio sabendo bem que qualquer que fosse sua escolhida, restariam sempre outras duas que jamais o perdoariam. Contudo, Hermes o ameaçou com a ira de Zeus. Assim, as três deusas se colocaram diante dele. Hera ofereceu-lhe o império do mundo, caso a escolhesse. Atena prontificou-se a fazer dele o guerreiro mais valente e mais justo de todos os tempos, caso a escolhesse. Afrodite, despindo-se das poucas vestes, ofereceu-lhe a taça do Amor, prometendo-lhe por esposa a mais linda mulher mortal.
O resultado não poderia ter sido outro. Paris, jovem e inexperiente, além de não ter ainda consciência dos valores morais e espirituais, escolheu Afrodite sem a menor hesitação. Sua recompensa foi a famosa Helena, rainha de Esparta e, para seu azar, esposa de outro homem. Hera e Atena, preteridas e humilhadas, simularam um sorriso e declararam que não poderiam forçá-lo a nenhuma outra decisão, senão a que já havia tomado e partiram unidas, tramando a destruição de Tróia. Assim foi deflagrada a famosa Guerra de Tróia, que começou com a fúria do marido enganado de Helena e terminou com a destruição total da cidade e de seus governantes. E mais uma vez o oráculo confirmou suas profecias.
As conseqüências de nossas escolhas são inúmeras, mas o que não podemos perder de vista é que nós as fazemos. Nós temos total responsabilidade pelo que diz respeito à nossa vida. Crescemos aprendendo valores, seja com nossos pais, seja através da religião, de nossos relacionamentos, do nosso ambiente. Filtramos isso tudo, ainda que inconscientemente. O resultado dessa filtragem compõe quase que totalmente o que consideramos diante de uma escolha. Nossas experiências e valores – particulares em cada indivíduo – são nossa terra firme mesmo diante de uma escolha mal-sucedida.
Normalmente, faço uma analogia entre o cotidiano e o boletim meteorológico. Em nossas vidas, há dias ensolarados e quentes e há dias escuros e gelados. Temos a brisa que nos refresca e a tempestade que nos assusta. Às vezes chove de leve, às vezes a chuva cai de verdade. E, todas as variações climáticas são igualmente necessárias à manutenção do nosso planeta. E cada corpo se adapta melhor a uma condição de temperatura e clima diferentes.
Ao reconhecermos nossa responsabilidade plena pela vida que levamos, reconhecemos também nossa capacidade de levantar quando caímos, de comemorar quando vencemos, de chorar quando necessário, de sorrir quando temos vontade. A consciência nos permite analisar nossas experiências e utilizar o que de bom trazemos delas, como um belo abrigo sob tempestades. A consciência nos permite a sabedoria de que o sol não ilumina os dois lados do globo terrestre de uma só vez, mas que sua luz nos chega na noite através do reflexo da lua.
É a consciência que nos descreve metafisicamente como nossas próprias alegrias, como nossas próprias dores. É a consciência que nos permite a compreensão que somos agentes plenos, ativos e passivos em nossa vida. E é a responsabilidade em nos mantermos sempre conscientes de que nossa vida pertence apenas a nós mesmos, que a vida que levamos resulta diretamente das nossas próprias escolhas, que nos permitirá o corpo energético saudável, plenamente atuante no meio em que vivemos.
Alessandra Fonseca
(Taróloga e Psicopedagoga)
Referência mitológica: – O Tarô Mitológico (Juliet Sharmann-Burke e Liz Greene)