Elucubrações Diabólicas – Tarot, Jung e o Diabo à quatro

Muitas são as qualidades dessa carta, mas eu acho pessoalmente que um aspecto forte do diabo é a distorção. Apesar de ser uma carta que aponta para nossos desejos e interesses mais ordinários, a aberração acontece no aprisonamento. A gente quer, muito, ardentemente, mas não se pode ter. Aí, aquilo insiste, insiste, até conseguir um atalho, um jeito de se dissipar. O julgamento externo ou entranhado de nossos príncípios, ou seja, o nosso filtro do MENTAL deformam os desejos, transformam em algo compulsivo e que muitas vezes, toma o controle do pensamento.

E aí, quando isso se exterioriza é através de caminhos artificiais, perversos, ou que exijam grande força da psique para lidar ou…talvez trabalhar a favor destes instintos. É um desejo que se manifesta meio torto por assim dizer, pois não tem liberdade moral e social para se expressar. É o parece, mais não é!

Eu fico me lembrando das analogias do diabo com Lúcifer, também chamado estrela da manhã. Lúcifer foi expulso do céu, porque queria reconhecimento. Bem, não o teve e levou pé na bunda. A gente faz o mesmo com nosso lado sombrio e ele volta para se vingar, é insistente e insidioso. Se vc não o reconhece em si…é pior.

A estrela da manhã é o planeta vênus, que na astrologia tem todas as características do apelo pela aparência, desejo, conforto, vaidade, etc…E inclusive rege nossas relações, nossos afetos. Socrátes dizia, que o amor nada tem de bonito, mas é filho da miséria. Nos relacionamos porque algo nos falta, carecemos. O diabo vai nesse viés, da divisão, não nos sentimos completos, precisamos e precisamos! Ele vai naquele ponto do nosso vazio, fonte dos mais loucos desejos. Di-hablo….duas falas. Que conversam e brigam na nossa consciência.

O diabo é aquilo que todo mundo quer, mas se o desejo de todos fossem atendidos, seria uma tragédia para a civilização como é constituída. Mas tem alguns que se lixam para isso e ainda se gabam, porque o diabo deles anda livre e dançarino. Ele gera um misto de acusação e inveja. Horror ou desdém. Mas a origem é mais uma vez, aquele vazio, aquela falta, que uns usam para comprar mais, beber mais, consumir mais…etc. O diabo é um problema sério, pois não dá para acabar com a raça dele, ele mora no porão e não paga aluguel.

Quando ele quer, usa bem da “civilidade” do homem. o fato é que o diabo nos tem. O desejo nos tem, ele não toca no seu ombro e pede licença: oi, querida, o que vc prefere desejar hoje?O máximo que podemos fazer é dar uma driblada, e nessa hora que o demônio aparece.

Bom, o homem faz tempos tem uma vida artificial…criada pela cultura. E aí, essa natureza mais primária, acaba aparecendo de modos muito diferentes.

O Diabo gera divisão, dúvida, não é a toa que a soma dá no enamorados. Começa lá no Adão em Eva, quando no paraíso tudo era perfeito, mas depois que comeram a maçã do conhecimento, a divisão se instaurou. Deram-se conta dos seus sexos, caíram no mundo da matéria e por aí vai. Tudo o que conhecemos se polarizou. Tudo virou “duas falas”.

Se simbolizamos o homem como o Pentagrama, no diabo podemos colocar o pentagrama “homem invertido”, com a cabeça voltada para a matéria. A cultura x “natureza”. O anjo bom e o anjo caído (mais analogia com Lúcifer de novo!).

O  diabo é apalavrinha simples: o desejo. Mas esse desejo tem “uma qualidade”.Vejo o diabo como característica de aprisionamento e distorção desse desejo, pqele em si, é simplesmente natural. O desejo nem fede nem cheira, elesimplesmente é.  Ter mais de uma mulheraqui é traição, no oriente médio,  quantaspuder sustentar. E se ela não quiser sexo, você pode matá-la de fome.O  diabo vem desse confronto com a cultura, sejanos crimes mais pesados, aos mais sutis. O desejo tá lá, mas que bicho que elevai virar?

Ele vira é aquela aberração, por causa dos caminhos que odesejo precisa tomar para ocorrer. Com as pressões exteriores, esse desejo saido original. Tratando-se de sexualidade mesmo…o básico todo mundo conhece,né? sabe para o que serve, etc. Agora o diabo passa justamente pelo filtro danossa mente, pelas atrações e proibições sociais, e aí, quando vemos por exemplo,a sexualidade, quanta imaginação!!!Tanto para coisas cheias de glamour, quandoo mais chocante, da pedofilia ao etc.

Entretanto,  Lucífer nãoé o cara culpado por nós sermos cretinos. Visto como símbolo, Lúcifer é partede  uma mitologia: ” a dos rebeladose exilados por Deus”. Quem são esses rebelados?Somos nós todos,uai!Lúcifer é analogia tb com a Sombra, nosso “personal Lúcifer tabajara”. Essa mitologia se aplica a nossa organização social,  temos leis, religiões, etc…representaçóesdesse grande pai, disciplinador, ordenador, enquanto ao mesmo tempo, existe umrebelde dentro de nós, que faz transgredir, ou distorcer as coisas a favor do nossoorgulho ou preguiça.

O diabo pode ser visto como a metáfora de uma entidade, tbno sentido símbolico, como aquilo que eventualmente pode tirar o controle sobrenós mesmos. Uma forte emoçao, uma paixão alucinada, um ódio mortal. Quando digoque o diabo nos tem, é de modo psicologico mesmo. A sombra está lá, ela semprevai existir em cada um de nossos atos. Qualquer atitude que tomamos, tem a suasombra. E em muitos casos, ela está inconsciente, em um momento de raiva e deexplosão por exemplo, quando conhecemos o “lado negro”de alguém, nãoé como se fosse uma entidade?A gente pensa: nunca vi fulano agir daquele jeito!Quando ele se acalma, diz: aquilo não era eu. Mas era, era ele também, emboraficasse escondidinho. Muitas vezes, inconsciente. Nesse ponto, em que perdemoso domínio sobre nós, na psicologia analítica, esse diabo além da Sombra, podeser visto tb como nossos complexos, que no passado eram visto como fenômenos depossessão. Um complexo de inferioridade por exemplo, pode ser o gatilho dasmais diversas manifestações de identificaçao com a sombra. Pq me sinto umamerda, preciso do mercedez, do aplauso, das drogas, etc.

O diabo é um dos símbolos que foi incorporado ao arquétipoda sombra criado por Jung. Já o bode tb já foi símbolo de fertilidade,amplamente aceito em outros tempos, tinha outros significados, mas com acultura judaíco cristã, este um símbolo tb foi absorvido como” imagem arquetípica da sombra. A imagem arquetipica do mal, está no pano de fundo dosmais diversos símbolos, pode ser até na cruz do nazismo para alguns. Aidentificação com um arquétipo geralmente se segue com os fenomenos deinflação.

Quanto a sombra individual, mais uma vez reportando a somado 15 = 6, enamorados, projetamos amplamente nossa sombra através da anima eanimus nas nossas escolhas amorosas. Quando nos apaixonamos por alguém, narealidade, nos apaixonamos pela nossa própria sombra. Serão os mesmos enamorados da carta VI, as figuras acorrentadas do arcano XV?

Refletindo sobre a sombra no aspecto pessoal, acabei me esbarrando com a teoria dos complexos.  Senti que talvez houvesse uma ligação entre o que Jung chama de complexos e a figura do diabo. Nesse texto da Lygia,  http://www.ajb.org.br/jung-rj/artigos/docs/diabo.doc postado por um tarólogo amigo, Giancarlo, encontrei um parágrafo interessante em que ela cita:

“Falamos, então, não da existência do Diabo literalmente, mas sim de um fenômeno que tem seu quantum de energia psíquica,ou afeto, constelado num complexo, desligado da consciência, que podemosobservar somente através de símbolos ou imagens organizados a partir deestruturas arquetípicas. A imagem do Diabo é sempre uma projeção da experiênciaemocional, vivida no momento de uma confrontação e uma tensão entre opostos,criada por uma cisão psíquica, e que tem uma função psicológica”.

Os Complexos para Jung, são imagens inconscientes quecirculam em volta de um afeto e podem “possuir” o nosso ego,consciencia. Olha que interessante, as associações do Jung sobre isso!

Ele já se referiu aos complexos como diabretes: “..que pôem em nossos lábios justamente a palavra errada, fazem-nos esquecer o nome dapessoa que estamos para apresentar, provocam-nos uma necessidade terrível detossir, precisamente no momento em que estamos no mais belo pianíssimo doconcerto; num enterro, mandam-nos congratular os parentes enlutados, são os autores daquelas maldades que Visher atribuía aos objetos inocentes”. (Jung – A natureza da psique)

E podem ser causados por ” …um conflito moral cujarazão ultima reside na impossibilidade aparente de aderir a totalidade danatureza humana. Esta impossibilidade pressupôe uma dissociação imediata, quera consciencia do eu saiba, quer não”. (Jung – A Natureza da Psique).

Ou seja, novamente cisão. O diabo sabotador. Como uma cartado mago invertida, um mago negro, um pilantra sacana!Talvez por isso, Hermes dos mitos gregos, possa ter analogia com o mago do tarot, e seja ele o enganador das encruzilhadas da carta do enamorados. Pode ter analogia aos exus mensageiros, que por sinal, tem como imagem representações cristãs parecidas com o diabo(chifrudos, carregando tridentes). Bom, apenas analogias, sem compromisso. Além das representações horripilantes, não podemos nos esquecer que o diabo 100% atual, veste PRADA e tem advogado.

Luciana Lebel
Taróloga e psicóloga