Distorções Interpretativas

Quando na faculdade de psicologia, eu estudei um pouco sobre a vertente comportamental e deparei-me com um texto que discursava sobre distorções cognitivas. Observando isso, percebi que muitas delas se aplicam no momento em que realizamos uma leitura de tarô. Essas distorções são como uma espécie de “pegadinhas” da mente que podem conduzir a nossa interpretação por caminhos dúbios, algumas vezes limitados e outras vezes, necessários. Não devemos nos ocupar delas de maneira neurótica, mas seguindo a velha máxima do “orai e vigiai”, deixo aqui algumas das distorções mais comuns que podem influênciar a interpretação das cartas, pois imparcialidade total é mito:

DISTORÇÕES COGNITIVAS

Pensamento dicotômico:
Fazemos uma leitura onde tudo é visto como preto ou branco, sem graduações de cinza. É tudo ou nada. Ex: Se a performance não é perfeita, é vista como fracasso total.
No caso do tarot, são as famosas perguntas em que o consulente deseja uma resposta sim ou não. São leituras reducionistas, onde poderia se retirar mais dados.

Hipergeneralização
Interpretação de um acontecimento único e singular como um padrão característico e contínuo.
Isso ocorre nas leituras, quando de algum modo tendemos a cristalizar o significado de uma carta, dar um sentido único. Também ocorre na interpretação de situações conhecidas ou que através da experiência dos outros, pré-concebemos um fim que acreditamos ser comum.
Ex: Cristalização das cartas: “Saiu torre é furada”!!! ou “Ih, diabo é bom para dinheiro”!
Pensamento fixo: “Todo homem é mau-caráter, toda mulher é sensível”. Mesmo o jogo falando sobre qualquer outra coisa, o pensamento fixo revela-se na  leitura ao consulente, ou na forma de afirmar que a carta que dialoga com vc de um modo tem que ser igual para todos os outros estudiosos.

Rotulação
Forma extrema de generalização. Se a pessoa comete um erro, se rotula logo como sendo uma fracassada, em vez de considerar que foi somente um erro e nada mais.
Aqui, ocorre o mesmo que na generalização. Mas faço um aparte direcionado  à posição do tarólogo: Ele/a tb erra, não é infalível. Nem por isso deixa de ser bom tarólogo, se for alguém realmente dedicado e responsável.

Os rótulos podem ter também cunhos religiosos, é preciso estar atento que talvez as suas regras de conduta e moral podem interferir como um julgamento do consulente. Não o rotule, uma pessoa possui muitas faces, algumas ocultas aos nossos olhos.

Abstração Seletiva
Filtro mental onde determinado aspecto de uma situação complexa é ressaltado, enquanto outros aspectos relevantes da mesma situação são ignorados.
Um jogo de tarô tem várias relações entre as cartas. É possível tirar uma síntese, mas é preciso tomar cuidado com a fixação em apenas um aspecto único, tanto no positivo quanto do negativo. Pode ser que tudo pareça perdido, mas cultivar um aspecto positivo apontado, pode dar chance ao livre-arbítrio preponderar.

Desqualificação
Experiências positivas “não contam” e são desconsideradas. Apego à situações negativas.
Acho que isso pode ocorrer bastante quando jogamos para nós mesmos, fica algumas vezes complexo avaliar principalmente quando estamos muito envolvidos em uma situação. Pode ocorrer tb aos ansiosos que tiram jogos freneticamente em curtos espaços de tempo. Então, o tarot passa a ser descartável.

Outra questão seria o atendimento do tarólogo quando está chateado. A possibilidades de ver tudo por um “prisma negro” é maior.

Inferência Arbitrária

Chegar à conclusões com base de:

a) Leitura da mente – onde se conclui e se assume que os outros estão reagindo negativamente ou positivamente, sem haver evidências suficientes para isso.
b) Adivinhação do futuro – Onde se antecipa que tudo vai dar errado e reage-se como se essa expectativa fosse fato já estabelecido.

A inferência arbitrária é quando o tarólogo quer realmente adivinhar o que o consulente está pensando, ou toma uma posição do consulente como algo literal. Ex: O tarólogo cisma que o consulente está mentindo, quando na verdade, equivocou-se em uma interpretação. É preciso saber o que é intuição e o que é teimosia.

A adivinhação do futuro é o mais problemático. Quando um jogo aparentemente negativo é dado como fato consumado, sem a variante “livre-arbítrio” e “capacidade de transformação”,  tomando a palavra do tarólogo como literal e o colocando na posição de grão mestre de sua vida.

Ex: “vou fazer uma prova para o concurso, vou passar?”
Resposta: Tudo indica que será muito difícil e que haverá uma derrota iminente. O sujeito então, pára de estudar.

Exagero
Exagerar a importância de situações negativas, de tal forma que sejam vistas como verdadeiras catástrofes, ao invés de serem lidadas em sua real dimensão.

Isso pode ocorrer porque o tarólogo sofreu uma experiência similar e que foi realmente dolorosa, ou conhece tal experiência através da história de alguém. Pré-concepções, desejos pessoais, podem traduzir as cartas de modo terrível ou hiper-otimista. Ex: Nossa!!Um 09 de ouros, pode encomendar o iate!!! O louco na casa 5 da mandala, você vai sair com qualquer um que ver pela frente!

Raciocínio emocional
Tomar as próprias reações emocionais como espelho da realidade.

Como colocado acima. Para ler as cartas é preciso estar minimamente equilibrado. Não significa que não deve usar suas emoções e intuições, virar robô, mas é diferente de ser arrastado por elas, projetando no consulente as suas questões pessoais.

Sensações de Obrigação

A pessoa se deixa guiar por noções de obrigação ou dever para motivar ou controlar seu comportamento.
Isso acontece na relação entre tarólogo e consulente. Com certeza, o tarólogo tem responsabilidade sobre o que ele fala para o outro que busca por orientação, é preciso buscar o bom senso, afinal, uma palavra pode curar ou adoecer uma pessoa. Entretanto, ele não tem o domínio sobre as ações do consulente ou suas decisões .

Pode acontecer do consulente “cobrar” do tarólogo uma interpretação não consumada, impingindo nele um sentimento de obrigação, que não está em suas mãos. Ele pode acreditar que por causa do tarólogo a vida dele andou para trás. Ou no caso positivo, que graças ao tarólogo sua vida ficou melhor e que ele guiará para sempre todos os seus passos. Entretanto, o que ele faz da palavra do tarólogo compete à ele.

Personalização
Assumir que é a causa de algum acontecimento externo negativo ou positivo pelo qual outros fatores são responsáveis.

Da parte do tarólogo, é como na sensação de obrigação. Se sentir o responsável por algo que não é de sua alçada, que diz respeito a outros fatores na vida do consulente. É possível ser um excelente orientador, como aquele que apoiou e fez refletir, mas o caminho do consulente pertence somente à ele.  Claramente se estabelecem vínculos entre tarólogos e consulente, entretanto é preciso separar a sua parcela da do outro.

Espero que possamos esta atentos a essas nossas tendências para que possamos acrescentar ao nosso autoconhecimento e realizar boas interpretações não apenas do tarô, mas também da vida!

Luciana Lebel
Taróloga

 

  • Luiz Costa

    Lu,
    vc realmente sempre mandando muito bem nos seus textos…
    Muito bom e muito bem colocado…
    Serve de alerta para muitos…
    Bjos