Diga Tarô meu…

Refletindo sobre os arcanos, acabei criando essa história em quadrinhos e finalmente decidi escrever um pouco a respeito de um assunto que faz grande parte dos consulentes buscarem o tarô: as relações afetivas.

Muitas das pessoas que procuram o oráculo sobre esse tema (na maioria  as mulheres)  chegam com o coração repleto de esperanças e fantasias. Mas o amor, ô tema complicado!!Envolve mil definições, expectativas, projeções, identificações, idealizações, ufa!Um dicionário inteiro de conceitos psicanalíticos! Sem falar, nas artes, pinturas, músicas, diversas fontes de inspirações, sobre o que afinal seriam esses sentimentos.

O que é o amor? Você sabe sobre a paixão? E a sexualidade? Onde eles se encontram, onde se distanciam?É aventura?É namoro?Casamento?!É liberal, pan-sexual?

Jogar o tarot para uma pessoa enamorada é algo muito mais desafiador do que aparenta. Muitas vezes, o consulente não está preparado para ouvir, saber o que as cartas têm a dizer. No mundo das conquistas afetivas, mais que saber ler o tarot, é preciso que o consulente tenha a consciência, que o seu desejo pode não ser correspondido. Suas expectativas podem não ser reais e existindo a proposta de verificar isso junto às cartas, é preciso estar também aberto à frustração. Normalmente, não estamos receptivos à isso.

Queremos saber se somos desejados, se estamos fazendo presença com a pessoa amada. Queremos saber se a pessoa vai querer um compromisso, ou se está gostando de outro alguém. Quando jogamos para nós mesmos nessas condições, podemos nos ver mergulhados em um movimento que eu chamo de looping. Rodeamos, rodeamos e paramos no mesmo lugar, até com mais dúvidas que no início do jogo, apenas nos repetindo, sem nos deixar tocar por aquilo que dizem as cartas, sem reflexão devido à urgência e ansiedade das emoções.

As cartas não podem saciar os desejos de uma pessoa apaixonada, fazendo com que insista em fazer as mesmas perguntas, de modos diferentes. O tarô pode não ser um remédio imediato para as dores de cotovelo e egos feridos, porém podem apontar caminhos de cura e ampliar as perspectivas, para isso, é necessário querer ouvir. Há momentos, em que o consulente deseja fazer mais aquela perguntinha, sobre o mesmo tema, querendo uma nova resposta. Na comunidade da tarólogos, ficou conhecido esse tipo de comportamento como o Tarot Fast Food. Tira a fome imediata, mas não necessariamente alimenta. As questões investigam todos os gestos, reações, olhares do possível parceiro, palavras, entretanto, saber o que ocorreu em um determinado momento, pode não nos dar a visão do todo. Por isso, escolher um método pode ser muito mais produtivo que perguntas avulsas ou repetitivas. Afinal, se o sujeito um dia te achou atraente naquele vestido vermelho, não significa que está louco por você. Cair no looping, deixa sua auto-estima na mão do outro, faz com que se sinta especial um dia, e no outro, um nada.

Tratanto-se de amor, todos os arcanos falam, entretanto, farei referência à duas cartas que chamam minha atenção em jogos.

Na minha visão, a carta mais atraente, que pode revelar um estado de enebriamento, arrebatamento apaixonado, seria a carta do Diabo. Tarólogos, consulentes, todos se vêem atraídos de algum modo pela obscuridade e magnetismo da sombra deste arcano. Quando esta carta é escolhida em direção ao consulente, é muito complicado para ele perceber sua própria “cegueira”. Não digo que é uma carta negativa, seria uma forma de rótulo, mas vejo como uma carta em que o desejo toma conta e a mente funciona como um “malandro que distorce tudo”, segundo o que queremos crer. Segundo algumas percepções, vejo que dependendo do que o consulente entende por amor, paixão, sexualidade, tudo pode misturar-se em uma coisa só e acabar enfeitando o pavão, mais do que ele realmente é.

Esta carta nas relações afetivas, vem carregada da palavra paixão, do grego pathos, que significa doença. Por outro lado, existe também o engodo, que significa também, isca, sedução.  Durante esse período, o tarot pode até nos fazer refletir, mas apenas nós podemos dizer não à certas iscas fatais.  Vejo que existe muito entusiasmo e medo quando surge essa carta, fala do proibido, do intenso e do poder, porém uma advertência nunca é demais, mesmo quando ignorada.

Outra carta que acompanha os afetos e causa frisson é o enamorados. Mostra os interesses iniciais, as escolhas entre pretendentes, mostra os triângulos amorosos ou aqueles que vivem em cima do muro, achando que um trem melhor chegará no futuro. O enamorados, aponta para as decisões. Questiona não somente o que desejamos, mas aquilo que devemos abrir mão. Abrir mão de uma vida de solteiro, de múltiplos parceiros para dedicar-se apenas a um? Nem sempre é confortável escolher, comprometer-se. O arcano dos amantes, pode ter reflexos de sua oitava maior, o diabo ( 15= 1+5= 6). Aquele que oferece liberdade total, sem escrúpulos, prazer garantido em termos de quantidade e aparências. O enamorados tem também a sombra dos triângulos amorosos que pode eclodir em sua oitava maior endiabrada, retratando traições, vícios e tabus.  A diferença, é que o enamorados, pode esquivar-se do comprometimento, já na carta XV, inevitavelmente paga-se um preço.

O enamorados precisa fazer a escolha de seu coração. Só ele através do livre-arbitrio poderá distinguir o que é a aparência, a sedução do arcano XV e o que será a essência, o amor.  Deseja dominar o outro, ou fundir-à ele?Será que tudo isso não é falácia? E seu desejo realmente lhe pertence? ou foi criado para você? Quantas de nossas escolhas afetivas não seguem padrões familiares, quando não, aquilo que é vendido pela mídia, socialmente aceito e esteticamente rotulado? O consulente que carrega o dilema dos enamorados, pode viver o inferno dos indecisos, da divisão interna, aquilo que ele deseja e o que o outro espera dele. Ele foi flechado pelo cupido e agora, o que fazer com isso?Muitas são as interrogações.

Os temas amorosos sem dúvidas são bastante extensos e todas as cartas da jornada podem falar de amor, de paixão, de entrega ou vaidade. Entretanto, o portal começa sempre com uma escolha. Qual será a sua?

Luciana Lebel
Taróloga