Debates ou Combates?

Faz bastante tempo que venho observando uma tendência à La Força exagerada no que diz respeito aos fóruns de Tarô, especialmente os do Orkut, nos quais diversas pessoas entram para colocar suas questões, suas dúvidas e até mesmo para opinar e esclarecer pontos referentes a nosso querido instrumento simbólico.

A coisa começa suave: alguém faz uma pergunta, às vezes simples, noutras complexas. Daí, alguém aparece com um posicionamento pessoal ou lavrado nas mais diversas obras renomadas que a grande maioria de nós que estuda/trabalha com o Tarô já conhece. Só que, na sequência, surgem colocações que, ao invés de desenvolverem um debate acerca das idéias colocadas, se posicionam de forma muitas vezes agressiva contra o próprio colega. O colega agredido, por sua vez, se defende. E, dando prosseguimento ao circo de horrores em que o tópico se transforma, a colocação mais famosa dentro dos fóruns de um tempo pra cá: “Não sei porque você levou para o lado pessoal…” encerra a conversa. Gente, isso é muito desagradável…

Eu realmente acredito que por detrás de cada monitor existe uma pessoa ‘humana’, com história e desenvolvimento como o de cada um de nós, aos trancos e barrancos porque a vida não é fácil pra ninguém. Nenhum de nós tem o direito de colocar quem quer que seja em berlinda alguma por simplesmente não dividirmos a mesma linha de estudo. Cada qual tem seu valor, e todos merecem respeito. No mais, todo mundo tem a mesma probabilidade de estar certo e de estar errado. Aliás, certo e errado são valores relativos e, quando o diálogo se faz possível, o certo incorpora partes do errado, o errado incorpora partes do certo, atingindo a meta de todos nós que é a ampliação do conhecimento… Desde que haja um debate e não um combate!

Esta tendência comportamental que nossos fóruns vem trazendo entorpece a discussão inteligente e, na enorme maioria das vezes, a disputa pelo ‘Mais Saber’ põe um ponto final na questão que permanece em aberto e perdida pelo caminho.

Houve um tempo (sim, houve!) em que a gente chegava a desenvolver altos estudos no campo do Tarô através destes fóruns. Muita coisa boa, construída com todos os tipos de Saber e de todas as linhas de estudo. Cabia aos participantes separar o conhecimento lá depositado de acordo com o que fosse de encontro com sua linha e pronto!

Sem agressões já estudamos História à luz do Tarô, as cartas da côrte, os chakras, métodos, Mitologia… Enfim, um grande saber foi construído através da contribuição de diversas linhas de estudo, sem preconceitos. Hoje, vivenciamos a Babel moderna cada vez que expomos um tópico polêmico. E um tópico polêmico é simplesmente um tópico polêmico, nada mais que isso. Tese + Antítese = Nova Tese, o que é bom pra todo mundo, mesmo que o tópico polêmico não vá de encontro a tudo o que você já viu, já leu, já aprendeu sobre o Tarô até agora.

E vamos dar os créditos e as honras a quem os merece:

“É o Tarô o caminho do meio e é ele o mais inteligente por sair-se infinitamente bem como oráculo e como instrumento de investigação terapêutica. É ele o mais sensacional entre todos por abrir suas portas à Cabala, à Astrologia, à Numerologia. Ele é o “Cara” por permitir e entender o fato de seus símbolos terem ressonância diversa em pessoas diferentes, em povos diferentes. E quem somos nós pra sequer tentar uma competição insossa com O Instrumento?!”

O ser humano se agrega por afinidades. Se você não se encontra em determinado conceito, respeite porque outras pessoas se encontrarão lá. O direito de ir e vir é o mesmo para todos! O direito de escolha é o mesmo para todos.

Eu já li frases como “Vá estudar” dentro de um fórum. Legal. Se a gente quer trabalhar com o Tarô temos mais é que estudar mesmo, o tempo inteiro, ininterruptamente porque a caminhada não tem fim. O caso é que tais colocações dentro de seus contextos são grosseiras, desrespeitosas a quem as recebe. Também são meio non-sense porque, obviamente, quem está participando do fórum está tentando justamente estudar!

Triste é que quando alguém restringe a utilização do Tarô a alguma linha, o significado de algum arcano a conceitos engessados, a verdade a um único autor acaba demonstrando que não confia na capacidade de atuação do instrumento em suas diversas vertentes como se dissesse que o Tarô é bom para isso mas não é bom para aquilo.

O que temos agora, infelizmente, é um monte de comunidade de Tarô parada, pendurada, enforcada. Uns tem receio de se pronunciar, outros tem certeza de que suas colocações são incontestáveis. Temos também uma coleção de “Templos de Afrodite” pra interpretar como resposta à falta de tópicos de estudo de desenvolvimento.

Este é um texto pessoal. É pessoal porque o desenvolvimento das discussões e estudos acerca do Tarô depende de nós, pessoas ‘humanas, falíveis, medianas, agrupadas por afinidades e seduzidas pelo mesmo instrumento’, de estudo para uns e de estudo e trabalho para outros.

Seja o que for que venha adiante, meu desejo é de que a Força seja construtiva em suas melhores características para que (me baseando e praticamente repetindo as palavras do Marcelo Bueno) o Pendurado tenha, rapidamente, sua corda cortada pela foice e nós reabramos nossas asas para que possamos alçar vôos mais altos em nosso belíssimo ponto de interesse.


Alessandra Fonseca – Taróloga Terapeuta