As Relações entre o Mito, Tarô e o Inconsciente Coletivo.

Para uma melhor definição do que são os arquétipos, a psicologia analítica de Jung pode ser de grande valia. O ponto focal da consciência humana é o ego, centro de identidade contínua da consciência de existir no mundo. É o organizador consciente de impressões internas e externas, das lembranças não reprimidas e da seqüência de eventos em termos das categorias espacial, temporal e causal. No campo do Ego ainda estão as funções psíquicas mais desenvolvidas e a atitude psíquica preferencial. (Introversão ou extroversão).

A configuração das quatro funções psíquicas (sensação, pensamento, sentimento e intuição) e das duas atitudes psíquicas (introversão e extroversão), definirão um dos dezesseis tipos psicológicos possíveis. Cada um destes tipos psicológicos constituirá características de personalidades diferentes. Este é um conceito que pode ser aplicado às pessoas, ao tarô e aos personagens míticos gregos.

A partir desta análise, Jung concluiu que os símbolos arquétipos faziam parte de uma mesmo inconsciente o qual todos participam. É o chamado inconsciente coletivo, que é composto destas imagens muito antigas que foram herdadas da psique. Esses padrões de comportamento são ligados ao instinto e são uma representação simbólica [1], coletiva que se expressa na personalidade, até mesmo porque as experiências humanas básicas são as mesmas, desde o alvorecer da espécie em todas as regiões da terra.

Jung acreditava que assim como o corpo possui uma evolução histórica, a mente também possui. Nesta compreende-se o desenvolvimento biológico, pré-histórico e inconsciente da mente do homem desde a sua forma primitiva, que se assemelhava à dos animais. O inconsciente coletivo está disponível a todos os homens de maneira igual, em qualquer lugar do mundo, ou seja, não é uma aquisição individual. Os seus conteúdos – os arquétipos – são “condições prévias” à formação psíquica em geral. Ele é composto por imagens do passado ancestral, imagens míticas, predisposições ou potencialidades no responder ao mundo tal como os antepassados. Seus conteúdos independem da experiência pessoal. Consideremos por exemplo, o medo que sentimos de cobra, do escuro. Isto ocorre porque nossos antepassados experimentaram tais medos ao longo de muitas gerações. Herdamos, então, a predisposição de temer as serpentes, e cada uma a vivenciará a seu modo, considerando a experiência pessoal.

Os Arquétipos [2] seriam estas idéias inatas, simbólicas, conteúdo deste inconsciente coletivo e podem ser divididos em dois grupos básicos:

De caráter pessoal: experiências pessoais esquecidas ou reprimidas.

De caráter impessoal: correspondem a elementos coletivos, são hereditárias.

O homem nasce com muitas predisposições para pensar, sentir, agir de maneiras específicas, e as expressões de tais predisposições dependem inteiramente das experiências do indivíduo.

Tanto Freud quanto Jung perceberam que o mito se enraíza no inconsciente.Uma vez que a inspiração provém do inconsciente, e uma vez que a mente das pessoas de qualquer pequena sociedade tem muito em comum, no que diz respeito ao inconsciente, aquilo que o chamam xamã ou vidente traz a tona é algo que existe latente em qualquer rum, aguardando ser trazido à tona. Assim, ao ouvir a história do vidente, é comum alguém dizer: “há!Esta é a minha história.[3]

Ao longo da vida, os arquétipos são ativados em diversos graus, tornando-se conscientes, enquanto outros permanecem inconscientes. Por esse ângulo, pode-se afirmar que toda a mitologia é uma projeção destes conteúdos do inconsciente coletivo e que os arquétipos são matérias fundamentais ao mito.

O estudo dos mitos e arquétipos é fundamental ao homem, principalmente no que Jung chama de Self [4] ou processo de individuação. Este processo ocorre quando conseguimos um equilíbrio saudável entre o consciente e o inconsciente:

(…)O processo profundo e íntimo que ele designou como processo de individuação, o qual não é senão o nascimento gradual de outro eu (que denomina o si mesmo), superior ao eu ou ego ordinário.[5]

Esse processo de individuação, para ser algo saudável, é necessário que haja trocas entre a consciência e a inconsciência, sem uma nem outra prevalecer. Por isso, nasce um mediador, o “si mesmo”, que traduz os conteúdos inconscientes para a consciência. É diante deste processo de individuação saudável que devemos analisar os mitos e arquétipos. Se estes são imagens do inconsciente, podemos traze-las a luz, para que possamos aspirar um ideal espiritual.


[1]Símbolo-Aquilo que por um princípio de analogia, representa ou substitui outra coisa, ou que por sua forma ou sua natureza, evoca, representa ou substitui, num determinado contexto, algo abstrato ou ausente.

[2]Grego Arkhetypos, etimologicamente significa modelo primitivo.

[3] Campbell, p.61.

[4] SELF (si-mesmo): O self é o arquétipo central da personalidade, é o “Grande Homem”. Representa a totalidade da psique, é o centro regulador que abarca tanto o consciente quanto o inconsciente.

[5] Anônimo – Meditações sobre os 22 Arcanos do Tarô,p.165

Por Lu Lebel