A Morte – Um ponto de mutação

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O arcano da morte toca em um tema delicado. Pode significar um fim, uma perda, uma despedida, uma transformação, uma mudança que nos causa arrepios na espinha de nosso esqueleto saturnino. Ela nos coloca de frente a transitoriedade da vida, por isso, a vejo intimamente ligada aos ciclos da Roda da Fortuna, a roda da vida. Ela é o momento natural em que um ciclo se fecha, após uma ou várias giradas que temos durante uma existência.

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Esta carta aponta para algo definitivo, rápido e objetivo. Porém, dependendo das cartas ao redor, podemos perceber se somos a planta, ou a foice.  Se é algo que foi tirado de nossa vida, ou se terá que ser. O arcano da morte é um divisor de águas. Porém nas entrelinhas, possui um antes, um durante e um depois. Ela é o ponto mais baixo da roda da fortuna, o ciclo de declínio, porém este possui um ponto de mutação, um ponto de virada para um novo ciclo de ascensão. Dependendo das cartas ao redor, a carta da morte, nos dirá se estamos ainda no declínio, no ponto zero, ou se já podemos sorrir e seguir adiante.

DECLÍNIO:

Algo está velho, em desuso, perdeu sua função. Uma planta que tem um parasita que drena sua seiva vital. Um galho que seca. O arcano XII, o pendurado, gerando angústia, não há mais o que fazer, apenas definhar e aguardar o ceifador.

A morte pode ser por decrepitude. Algo que vai se desgastando, envelhecendo, morrendo, que chega ao final do seu ciclo natural. São situações que percebemos, sem maiores dilemas, que não são mais úteis, que não tem mais função na nossa vida, pois acabou o prazo de validade. Esta é aquela despedida sem ressentimentos maiores.

Pode ser também, situações em que insistimos em carregar um peso morto. Isso nos será cobrado posteriormente.

Mutação – A FOICE:

É a atitude, ou golpe para a retirada do que não mais tem utilidade. É a faxina na plantação. A hora da metamorfose.

foiceA foice pode vir com dor, ou nos livrar dela. Quando mais “afiados” estamos, mais rápida a solução.

A morte pode ser algo que realizamos calculadamente, quando somos nós que devemos pôr mãos a obra e efetuar o corte derradeiro, quando decidimos com determinação, tal como o agricultor que sabe que tem que tirar um pouco a mais daquele galho para garantir que o mal foi retirado. É quando percebemos que algo não deve fazer parte da nossa história, ou que não devemos alimentar e deixar crescer algo que poderá vir a ser um problema. Quando temos um hábito enraizado, um apego, que apenas nos puxa para a destrutividade, ou nos impede de evoluir.

A morte pode ser também súbita, precoce. Aquela que a foice passa e faz uma secção inesperada. Quando sofremos uma perda, fomos simplesmente cortados de uma situação. Quando existe uma morte física literal, a matéria se transforma, o mesmo ocorre com situações da nossa vida, elas podem ser transformar em algo que não contávamos. Configura-se como um momento, em que mesmo nos sentindo plenos de vida e ativos, alguma interferência pode virar o jogo, que podemos perder algo, alguém, ou até nós mesmos no caminho.

DEPOIS:

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O velho serve de adubo (aprendizado). A foice serve como arado para criar sulcos na terra e fazer germinar novas sementes. As plantas depois da poda criam novos galhos e folhas, de algum modo precisam de novos caminhos para prosseguir seu crescimento, absorver os raios de sol e fazer a fotossíntese.

A morte pode ser algo que é retirado da nossa vida, mas que serve como “adubo” para que cresçam novas possibilidades. É a morte da “poda”, aquela que nos transforma, que após o ciclo da despedida e da perda, algo nos modifica, nos faz repensar e criar novos meios de prosseguir crescendo, nos adaptando, inovando.

Podemos passar um tempo de luto, dependendo se  a mudança for drástica, ou dolorosa e sofrer por aquilo que perdemos. Praticamente nunca é fácil. Crescemos quando nos esbarramos com os sofrimentos e limitações, astrologicamente a foice e o esqueleto deste arcano pode nos remeter ao rígido saturno, o professor exigente, que faz com que corramos atrás do prejuízo às custas de muito suor e poucos recursos. Algo tem que brotar de nós apesar de todos os pesares!!

Gosto muito da metáfora da metamorfose da borboleta. Ela é uma lagarta que se arrasta, comendo as folhas verdes dos jardins, mas chega o momento em que é hora de se recolher, pois existe um ponto de mutação genética, em que ela precisa mudar a velha forma, ganhar asas e beijar as flores. De uma praga que destrói as plantações, passa a ser uma fertilizadora e propagadora de pólen. A lagarta ficou para trás e não lamenta o seu casulo de outrora. Ela pode voar.

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Por Luciana Lebel