A Lua e o amor – Sonhos de relacionamento


“O arcano da lua é como caminhar nas trevas com uma luz pálida e um espelho na mão”.

O amor pode ser visto como um dos pontos cruciais na carta da Lua, pois envolve o primeiro  afeto de nossa vida, a grande mãe, que constrói, alimenta e abarca o nosso emocional. O amor fruto de tantos sabores e dissabores, exagero e falta…Vamos falar de SER. E de aprender a SER, na nossa relação com o OUTRO.
Gosto de pensar que a lua é caminhar nas trevas com um espelho na mão.A lua reflete a luz do sol, e reflete o envolvido no espelho de suas alusões românticas e seus medos mais profundos.  A sua luz é pálida, por isso a nossa auto- imagem refletida no espelho, pode ter distorções para o belo ou assustador. A lua traz o romantismo, pois tem o desafio, tem as particularidade do “não visto”, é aquele amor intangível, idealizado e puro. E o medo, porque na solidão, encaramos nosso eu imerso.
Caminhamos nas trevas, por que as situações são veladas, o caminho da identidade é escuro, e com um espelho na mão, pois nesse percurso, temos apenas a nós mesmos. Por isso, a lua desemboca no eremita (18= 1+8=9) e na nossa solidão. Até onde está acesa a lamparina do auto-conhecimento?Isso pode ser decisivo quando entramos no arquétipo do arcano 18.
Permtir-se acender a lanterna do eremita nesse lugar misterioso, pode ser algo que abre feridas antigas. Por isso, a lua tem um aspecto de querer anestesiar-se, de fuga da realidade. Assistindo o documentário do escritor Alan Moore, que tb é um ocultista(vejam no site tarologos.com), ele disse algo que me marcou: Todos nós temos uma alma única. Entretanto, muito de nós não suportamos a responsabilidade de ter que lidar com algo tão precioso quanto nossa alma.
Não suportamos ter que dar conta de algo tão fantástico, muitas vezes, preferimos ficar catatônicos frente a TV, nos narcotizando, quando não, recorrendo às drogas, que não precisam ser as ilegais. Podem ser anti-depressivos, fugas através da comida (a lua mãe, rege esse aspecto de ingerir, absorver e nos fazer retornar a um estado de bebê), como tb através do alcool, fome de consumo, auto-piedade, entre outras coisas variadas fraquezas. Todos temos um estágio de desamparo e pagamos o preço por isso, quando não assumimos a responsabilidade de nossas almas, desejando apenas ser “amamentados” eternamente por esta grande mãe.
A lua não precisa ser esta mãe negra, devoradora de almas, se nos dispormos a desvendar e buscar aquilo que nós somos de verdade, usando a lanterna do auto-conhecimento para compreender as dores, os medos, sofrimentos, transformando em poesia, filosofia, imagens, inspiração e ideais elevados que nos ensinam sobre nossas próprias trevas, como ao mesmo tempo, nos mostra aquilo que é mais mágico e espiritualmente oculto em nós.
A Lua, no tarot de marselha, tem um rosto muito parecido com o louco, como a inconsciência da loucura. Por isso, tb tratamos os loucos por lunáticos, ou dizemos que este alucinou, que habita o mundo da lua, etc… Deste inconsciente, temos a nossa criança interior, o inconsciente coletivo e o “caldo” do imaginário que inspira e ao mesmo tempo, provoca o caos.
Se o louco é o Zero, a criança que salta do útero para o abismo, quando estamos vagando pelas trevas do arcano 18, nos confrontamos com o nosso VAZIO. Com o nosso NADA. Com a ausência de identidade própria, pois existe a confusão entre todas as imagens que apreendemos e aquilo que realmente somos. Os desejos autênticos e os comprados. O que é nosso, e o que é expectativa lá fora.
Fechar os olhos, nos leva a escuridão. Mas fechar os olhos para contemplar a si mesmo, ou seja, através do “espelho”, pode fazer grande diferença do “fechar os olhos” à própria existência.
É nesse mergulho profundo, que pode ser alcançado na solidão, ou na meditação, deixando as imagens e vontades passarem…que podemos nos perguntar: e que diabos sou eu nesse mar de percepções, quereres e imposições?Da família, de ter um corpo, de conquista, de ter uma alma…e assim, desgarrando desses apegos, afetos, do colinho do astro da maternidade, é que se pode sair do útero e nascer, em busca de uma iluminação, a carta a seguir, o SOL.
Por outro lado, é deste VAZIO, que através do conhece-te a ti mesmo, podemos estar plenos de tudo, realmente alcançando a individuação citada por Jung, a sabedoria e despojamento do Tolo do ínicio da jornada, abraçando o mundo com um salto, mas sob a luz do dia.
O Lua pode ter várias associações astrológicas, dentre elas o signo de câncer, algumas vezes ttambém associada ao signo de peixes, netuno ou a casa 12 pelo seu aspecto sonhador,narcotizante, psicótico e de fuga da realidade. Ao mesmo tempo, podemos associar isto à magia, idealização, à espiritualidade elevada e ao mundo das artes.
O aspecto mental da carta da lua, tem relação com o imaginário e com a memória. Mas não é uma questão mental como à do mago por exemplo. É da estruturação da identidade, da experiência vivida, carregada de sentimentos e impressões. Aqui, nós sentimos e pensamos, ou seja…refletimos!A lua reflete…
Quando tememos algo, o que o medo se utiliza?Daquilo que nossa memória e experiências acumularam. Por exemplo, se uma pessoa tem fobia à rato, pode tratar-se de uma associação diante de algum medo mais profundo, por exemplo, de doenças ou da morte. Pode ter sido fruto de uma lembrança na infância, dos primeiros momentos de vida junto à sua mãe. Quando nascemos, somos jogados ao VAZIO, o mesmo que falei sobre o louco e sobre esse NADA, que o arcano 18 nos confronta. O primeiro abismo e sensação aterradora de uma criança, é no seu nascimento. A lua traduz o enraizamento dos traumas mais primários, e algumas vezes traumas secundários, que podem ter raízes muito encobertas.
No final das contas, em termos de relação, na minha visão, a pessoa lua em estado patológico, associa à solidão (eremita), tem atração ou pânico do auto-aniquilamento, desintegração, cuja fonte pode ser remota, até mesmo a fonte original, o ZERO.
Tratando-se à lua um arquétipo associado à maternidade, o arcano que nos abastece a alma, a imaginação e a memória, o que a nos contece quando nos sentimos privados de algo, rejeitados emocionalmente, solitários no mundo? O psicanalista Donald Winicott foi um especialista na relação mãe-bebê e dizia que se a mãe (aquilo que nos nutre emocional e fisicamente) falha além de sua capacidade de suportar, inaugura-se as chamadas angústias impensáveis que para Winnicott são “caracterizadas pelo medo de um retorno a um estado de não-integração, medo de cair para sempre, medo da desintegração, perda da conexão com o corpo, perda de orientação e perda da capacidade de relacionar-se com objetos(aqui leia-se também pessoas). Uma dia fomos fundidos à nossa mãe, mas após uma separação traumática, ficamos ao relento.
E assim à lua, pode reger os morbidamente deprimidos, os suicidas, os viciados, cuja raíz pode ser esta falta de nutrição, essa falta de colo, privações e perdas.Seu desejo é a fonte original, o lugar de onde saíram, os úteros maternos.
Tentando ser mais prática, ligando ao cotidiano, a pessoa lua pode gerar uma pessoa muito DEPENDENTE, como o contrário, uma pessoa com a ILUSÃO de PLENA AUTO-SUFICIÊNCIA.
A pessoa lua do tipo DEPENDENTE, FAZ a carência emocional prevalecer, a auto-estima é baixa. Desnutrida de afeto, ela “enfia” as próprias considerações na imagem do parceiro. Ela vê o que quer ver no outro, que pode ser uma pessoa, ou mito, o fato é que se encontra um meio de fazer essa projeção, podendo esbarrar com muitas desilusões quando a realidade emerge daquelas águas paradas do arcano 18. Ela pode aceitar migalhas dos outros e suportar até maus tratos. SE JOGA NA DESINTEGRAÇÃO, se dilui no parceiro, perde a personalidade. Faz de si, o que o outro deseja. Dada à auto-piedade e à alienação. Pode ter tido poucos incentivos na infância, expectativas baixas dos pais, ou a rejeição deles.
Já a pessoa lua do tipo “EU ME BASTO”, predomina medo. Herda do eremita, aquela coisa do senhor rabujento ou de auto-preservação. A pessoa age como se fosse um macaco velho. Pode isolar-se inconscientemente, rejeitando todas as relações ao seu redor, baseada em paranóias criadas, o que na psicologia chamamos de “mecanismo de defesa”. Antes que ela possa ser estraçalhada (sempre verá esse perigo rondando),  com a frase antes só do que mal-acompanhada pendurada como diretriz máxima.
Pode ser dada aos amores platônicos. Uma pessoa Lua pode desejar sempre o amor distante, inalcansável ou o amor do passado que não retorna, ou “aqueles tempos que eram bons”.
Vive eternas saudades, ou simplesmente almeja o amor perfeito, sem nenhum risco de ter que esbarrar com bafo de onça, ou a meia suja, etc. Não acolhe o presente, nem deseja reconhecê-lo como algo que pode ser novo e melhor. O Eremita incurtido na carta da lua,pode colocar uma série restrições e exigências sobre o outro, uma série de manias próprias, que dificilmente fazem concessões, criando atmosfera de desconfiança com o possível parceiro. Aquela coisa de estou bem sozinho, com minha fantasia, para que ficar me esforçando em me relacionar, equilibrando interesses com alguém, etc…
Uma pessoa lua pode ser alguém que simplesmente tem medo de entregar-se e desintegrar-se no oceano do outro, com bons discursos sobre auto-suficiência, mas repleto de fantasias, ideais espirituais e romances homéricos aos quais se nutre emocionalmente. Igualmente pode ter tido poucos incentivos na infância, expectativas baixas dos pais, ou a rejeição deles, o que a faz compensar com o discurso do “eu não preciso de ninguém”. O amor à torna vulnerável, e ela não quer depender do amor de ninguém, prefere criar sua própria e perfeita história. Ser a eterna criança com seus contos de fada.
A Lua, rege nossos hábitos, nossos humores. A pessoa lua do tipo “EU ME BASTO”,de repente não vai com tua cara. Seu mecanismo de defesa, faz com que ela veja algum defeito no outro, que a remete à alguma coisa do passado e associando isso ao seu poder imaginário,tal característica pode virar o demônio. Teme perder sua integridade na relação e é defendida, usando de imaginação, fantasia, idealismo COMO FUGA. Algo que tem controle sobre, ou que já lhe é familiar.
A do tipo DEPENDENTE, não vê o outro, se APOIA nele,  como uma muleta, mesmo que seja ruim. Não se conhece o suficiente, tem o eremita adormecido, então precisa de uma referência externa para SER. Um outro que lhe seja uma mãe, que lhe nomeie o mundo e lhe “dê de mamar”.
Em ambos os casos, a ausência desta “nutrição materna”, pode tornar o sujeito um psicótico, um regredido, uma criança que necessita cuidados, que se mostra vulnerável, doente ou megalomaníaco por sistema de compensação. O nosso inconsciente pode ser visto como o resquício do nosso lado infantil, diz a psicanálise. Porém, pode ser também o arcabouço de todo o imaginário, a criatividade, diria a psicologia analítica.
A lua fala de pressentimentos. Quando PRÉ-sentimos algo…sentimos antecipadamente. Se o fazemos, pode ser uma intuição certa, mas pode ser o reconhecimento de um sentimento que tememos e abominamos. E assim, nós o RE-SENTIMOS. Ou seja, nos relacionamos com o outro, tendo por base o RESSENTIMENTO, sobre a égide dess arcano.
Bom, tudo isso, é o que percebo deste arcano, segundo minhas percepções próprias e finalizando minhas considerações, o sujeito lua no final das contas, pode ser um baita de um covarde no amor, ao mesmo tempo que flerta com um amor espiritual transcendente.
Em algum momento da jornada amorosa, vamos nos esbarrar com esses dilemas lunares,vestindo essas personas. O tipo DEPENDENTE e o tipo AUTO-SUFICIENTE podem se alternar, oscilar em uma mesma pessoa. (veja bem são nomenclaturas, rótulos que estou dando, não é para ver de modo rígido).
Astrologicamente, associo, à uma venus (relações) exaltada no signo de Peixes e o impasse entre desejar ser o UNO com o outro, fusão e o medo de nos perder, nos desintegrarmos ao grande mar do inconsciente, ou  na relação com esse outro.  Convenhamos, QUE PARA AMAR, um pouco de magia, sonho, poesia, na dose certa, É MUITO NECESSÁRIO!Amores de internet, secretos,  proibidos, dos amantes que se escondem dos olhos dos outros,  as saudades,  as músicas que cantam a solidão, são atrativos às suas projeções do imaginário deste arcano. Entretanto, o que seria de nós sem esse manancial dos véus lunares!
Luciana Lebel
Taróloga e psicóloga.
  • Que coincidencia…escrevi um post hoje sobre o arquetipo da Grande Mãe e a essência floral Ingá.